o acordo que o Governo fez com o PMDB para fechar a Petrobras, tal como concebida por Vargas e Lula.
Antes, ele fez esse discurso da tribuna, quando lembrou que o Cerra vai vender o pré-sal à Chevron (não deixe de ver que o
Roberto Requião[1]
link no youtube:
https://youtu.be/340YtYLDcLg Eu confesso que somatizei a nossa derrota no Plenário de ontem. Eu amanheci exausto, adoecido, frustrado.
De
repente, eu tomo consciência de que o sentimento de nacionalidade do
Brasil está fragilizado, porque algumas lideranças nas quais o povo
depositava a confiança e a esperança foram engolidas em um processo de
corrupção, e isso abre um espaço terrível para que interesses que não
são propriamente do Brasil caminhem, de forma firme e forte, em um
processo de fragilização e mesmo de extinção de um projeto nacional.
Isso é muito triste.
No mundo, qualquer pessoa sabe das implicações geopolíticas da questão do petróleo.
Sabemos
que os Estados Unidos gastaram bilhões de dólares para tomar conta do
Iraque, muito pouco preocupado com Saddam, que foi seu aliado e mantido
pela própria CIA durante muito tempo para combater os iranianos. A
guerra e manutenção de tropas no Iraque preocupa basicamente em manter
em suas mãos as reservas de petróleo.
Estamos diante de uma
guerra geopolítica. Os Estados Unidos arriscam a própria
sustentabilidade do seu território com as venenosas operações de shale
gas, baixa os preços internacionais, traz a Arábia Saudita para esse
jogo, para enfraquecer Venezuela, Rússia e outros países importantes que
vivem do petróleo. Os baixos preços do petróleo são uma estratégia
geopolítica.
Eu diria mais, repetindo o que já disse mil vezes
desta tribuna, depois da derrota do nazismo, na última guerra, cresceu
na Europa, o Estado social, o Estado com as garantias trabalhistas, o
Estado preocupado com a educação do povo, o Estado preocupado com os
direitos humanos, o Estado que se volveu para as necessidades da
sociedade e, de certa forma, acabou com o predomínio absoluto do
capital.
E este Estado, hoje, sofre um ataque brutal, a partir da
ação de Mamon – Mamon em hebraico, significa dinheiro, não é nem deus,
nem diabo, é o dinheiro, assim descrito na Bíblia. Mamom tenta recuperar
os seus espaços perdidos com o avanço do Estado de Bem Estar Social.
Para
recuperar seu espaço, Mamon, praticamente, liquidou com a economia da
Espanha, da Itália, de Portugal... Seu projeto tem um tripé: o primeiro
deles, é a fragilização do Estado, com a autonomia dos bancos centrais.
Uma proposta onde o Estado se resume a um gendarme, um guardião que se
oporá às revoltas populares diante da exploração do capital. O segundo
objetivo é a precarização do Parlamento, com o domínio absoluto do
capital financeiro, que se coloca acima dos partidos, financia
campanhas, partidos políticos e candidatos, e os Parlamentares se
transformam em mandaletes dos interesses do capital vadio. Não tem mais
ideologia, não tem ideal, não tem patriotismo, não tem nenhum sentimento
de nacionalidade. E o terceiro objetivo é bem claro, é a precarização
do trabalho, o fim das leis trabalhistas, que encontrará a oposição
frontal do nosso Senador Paim, o Senador do trabalho no plenário do
Senado Federal.
Mas dentro desse pacote e com esse amortecimento
da consciência nacional, com a frustração causada pela corrupção
evidente de alguns líderes partidários que tinham a confiança e eram
depositários da esperança do povo, nós ficamos extremamente
fragilizados.
A Presidente Dilma já se manifestou, como era de se
esperar, contra essa proposta de José Serra. Porque ela não tem
sentido, quando diz que quer retirar a exclusividade da Petrobras no
pré-sal, porque a empresa está com um endividamento alto. Não tem
sentido, porque não existe uma empresa de petróleo no mundo que não
esteja fragilizada financeiramente com os preços baixos. O prejuízo de
todas elas é enorme, muito maior do que o da Petrobras. E maior do que o
da Petrobras porque a Petrobras tem uma reserva gigante de petróleo do
mundo com baixos custos de exploração – US$8,00 ou US$9,00 o barril –,
um petróleo que está garantindo lucros, mesmo na crise. E também porque o
pré-sal está entre o Rio e São Paulo, os grandes centros consumidores,
processadores e onde estão os principais terminais logísticos da
Petrobras. O pré-sal é o ouro para a Petrobras.
As petroleiras
não vão investir hoje no Brasil de forma nenhuma porque estão quebradas,
estão em dificuldades e porque o petróleo está sobrando no mundo.
Então, por que, de repente, aporta no Senado, com essa violência e esse
desejo absoluto de velocidade, essa modificação do modelo?
Atende
a quem? Atende a que interesses? Por que não querem o debate? Por que
raios não foi para as comissões normais e se tentou submetê-la a uma
comissão montada pelo Presidente do Senado, sem a indicação dos
partidos? O que é que está atrás disso? Será que só eu enxergo esse
açodamento súbito e violento? Qual é a dificuldade de um debate claro em
cima da questão do petróleo?
Não vai haver investimento no
Brasil, mas as grandes empresas que trabalham com petróleo no mundo vão
se assegurar das reservas brasileiras como reservas estratégicas para o
domínio no petróleo no futuro.
Os apressadinhos que querem votar
isso para ontem, sem discussão, açodadamente, sem que o povo saiba dizem
que “o petróleo não pode ficar enterrado”, “o petróleo não vai valer
nada no futuro”. Como o petróleo não vai valer nada se tem 3 mil
derivados!
Não existe um Senador ou uma Senadora neste plenário
que não porte ou não tenha, em seus trajes, algum componente que tenha a
participação da indústria a partir de um derivado do petróleo. Não tem
nenhum sentido essa história de que não vai valer nada.
E a
Petrobras pode - e o Senador Lobão liquidou os argumentos de Romero Jucá
numa reunião da Bancada –, sim, extrair petróleo em poços novos sem
nenhuma dificuldade, se quer financeira. Com 50, 100 bilhões de barris
de reserva, não teria dificuldade de financiamento neste Planeta. O
mundo está inundado de dinheiro com esses tais quantitative easing.
Agora,
por que o açodamento? De repente, Senador Serra, ligo para o meu
gabinete e dizem: "Não, mas o WikiLeaks publicou documentos sigilosos da
embaixada americana e republicados na Folha de S. Paulo, que o Senador
Serra teria prometido trabalhar para acabar com a lei que dava
exclusividade à Petrobras na exploração do pré-sal”.
O SR. JOSÉ
SERRA (Bloco Oposição/PSDB - SP) – Sr. Presidente, pela ordem. Não só
fui citado como foram feitas alusões absolutamente indevidas à minha
pessoa. Portanto, peço um aparte.
O SR. PRESIDENTE (Dário Berger. Bloco Maioria/PMDB - SC) – Vou conceder a V. Exª....
O
SR. ROBERTO REQUIÃO (Bloco Maioria/PMDB - PR) – Isso fica me trazendo
preocupação. O que há por trás desse açodamento e dessa velocidade? O
que há de urgência nesse processo? Por que essa abertura? Por que a
entrega do patrimônio que se consubstancia nas jazidas petrolíferas
brasileiras? Por que esse Governo fragilizado por uma série de problemas
e com medo do impeachment não age com mais energia?
Antes de
ontem, nós votamos aqui o aumento de um imposto que, a meu ver, parecia
completamente absurdo, sobre lucros de capital. Eu dizia, lá do
plenário, utilizando o microfone, que um estudante que tenha comprado,
há 40 anos, um apartamento por R$10 mil, iria vendê-lo agora ou
transferi-lo para um herdeiro e ele estaria valendo R$2 milhões. Pagaria
imposto sobre R$1.990,00? Isso é justo?
Não, mas o plenário,
obedecendo à ordem do Governo e à visão liberal que atravessa esta
república neste momento, votou a favor. Foram 11 votos contrários. Sou a
favor do imposto pesado em cima dos lucros de capital, mas no exemplo
citado há exagero. Mas a base seguiu o governo. Ontem mesmo, quando boa
parte dessa mesma base votou na sua maioria pela urgência de votar o
projeto de entrega do pré-sal. Os muitos votos que conseguimos foram
votos de consciência, não foram votos orientados. O governo orientou o
que?
Mas nós estamos em cima de uma proposta de aspecto
fundamentalmente entreguista, não ajuda o Brasil. É preciso que a gente
marque posição. Não sei qual é a intenção disso. É favorecer a Chevron? É
a favorecer a Shell? É prejudicar o País? Não há urgência, não há
necessidade e não se extrai petróleo no mundo hoje. Nenhuma delas, nem a
Petrobras.
E insisto: se a Petrobras pudesse contar com preços
maiores, poderia facilmente investir ainda mais do que já está
investindo no pré-sal. O governo também poderia pedir para seus bancos
aumentarem os empréstimos para a empresa. O Banco dos Brics e os
chineses já ofereceram muito dinheiro para financiar os projeto da
Petrobras.
Mas há o constrangimento do Governo com essa pressão
midiática, há esse enfraquecimento da consciência nacionalista do País e
há o avanço de ideias liberais. É o fim de um projeto nacional. É a
valorização absoluta do dinheiro.
E eu me lembro, Senador Serra,
do Papa Francisco em Davos. O capital é bom quando ele é investido,
produz empregos, produz bens, inovação tecnológica, mas não pode o
interesse pelo dinheiro, o jogo geopolítico das grandes potências
subordinar uma proposta de crescimento de um projeto nacional que seria
tão importante para os estudantes brasileiros.
Vou repetir. Não
adianta leiloar o pré-sal agora. Não vai haver investimento enquanto o
preço estiver lá embaixo, mas o preço não ficará para sempre lá embaixo.
O pré-sal é uma garantia do futuro do País.
O pré-sal é muito
melhor e muito maior do que o Shale Gas dos Estados Unidos que tantos
por aqui enchem a boca para falar. O shale gas tem um pico de extração
em um primeiro momento. No segundo ano a produção já cai na metade e o
reservatório tem um declínio rápido. Muitas primeiras empresas
americanos que começaram explorando essa suposta panaceia já estão
falidas. E é por isso que eles vem para cá para querer pegar o pré-sal
para elas.
E estão com muita pressa para começar esses leilões já
na “nova lei”. Em breve o preço do pré-sal vai aumentar. A Rússia e a
Arábia Saudita, junto com a Venezuela, estão anunciando uma contenção na
produção.
A corrupção é séria. Eu quero ver essa gente toda na
cadeia, punida, mas a corrupção não é a responsável pela circunstancial
crise financeira que a Petrobras atravessa. O grande problema da
Petrobras foi o aumento brutal dos investimentos com o sonho de
viabilizar logo recursos para a educação e para a saúde. O erro foi aí.
Não previram a jogada geopolítica dos Estados Unidos, baixando o preço
do petróleo no mercado mundial. Não previram que o dólar subiria tanto.
Investiram muito, se endividaram em dólar e o dólar disparou em relação
ao real. Esse é o maior problema, mas que logo será solucionado com o
retorno dos preços aos seus patamares normais.
E nós, no Senado
da República, temos que ter consciência do que estamos fazendo. Não
devemos irrefletidamente, sem nenhuma razão lógica, votar apressadamente
no projeto do Senador José Serra, que, quer ele queira ou não, é um
projeto entreguista e prejudica o Brasil. Prejudica o futuro do País, a
viabilidade de um projeto nacional.
É um projeto que prejudica a
Petrobras porque, é graças ao pré-sal que a Petrobras está sobrevivendo à
crise, e que será ultrapassada rapidamente. O preço do petróleo vai
voltar para o patamar dos US$80 e estará tudo isso resolvido.
E
essa justificativa nova de que a Petrobras pode ficar como operadora
preferencial da extração de petróleo, numa imagem que eu já coloquei com
clareza, é como se uma família em dificuldade fosse instada, em uma
dificuldade passageira, resolvível em médio prazo, fosse instada a
vender a propriedade.
Mas daí o comprador lhe garante: Vocês vão
vender a propriedade, mas a esposa do proprietário terá preferência, se
quiser continuar como cozinheira da família que vai comprar o imóvel.
Essa
proposta não tem cabimento, é antinacional e é preciso que se registre
um protesto com toda a energia. O Governo está fraco, a situação do
Brasil é de fragilidade institucional e nós estamos entregando o futuro
do Brasil para Shell.
Senador José Serra, dá uma olhada lá para
traz e veja quantos lobistas do petróleo estão frequentando o plenário
do Senado. Está cheio de lobistas aqui, mas onde estão os trabalhadores,
os petroleiros que eu conversei lá fora? Eles não puderam entrar né? Os
trabalhadores brasileiros, nossos petroleiros não puderam entrar no
plenário hoje. Por que?
[1] Roberto Requião é senador da
República, no segundo mandato. Foi governador do Paraná por 3 mandados,
prefeito de Curitiba e deputado estadual. É graduado em direito e
jornalismo e pós-graduado em urbanismo.A
visita da vice-presidente da Argentina, Gabriela Michetti, ao
presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), nesta terça-feira (23),
tinha todos os contornos para ser protocolar e diplomática. Mas a
audiência acabou servindo para Renan, sempre esquivo em seus
posicionamentos políticos, expressar sua torcida pelo fim da era petista
no Brasil.
“Estamos acompanhando com muito interesse para que
aqui também aconteça o que está acontecendo na Argentina”, desabafou
Renan Calheiros, surpreendendo aos senadores brasileiros habituados aos
gestos de salvação do governo Dilma Rousseff.
A declaração do
senador peemedebista, baseada no jargão publicitário da vodca Orloff
(“eu sou você amanhã”) acabou também por animar a vice-presidente
argentina, que se empolgou com o estímulo e respondeu ao desabafo,
complementando o raciocínio:
“Na Argentina precisamos por fim ao populismo que provocou uma reação anestesiadora no país”.