quarta-feira, 2 de julho de 2014

SP 247 – Não se vê mais notícias sobre a crise do abastecimento de água em São Paulo. Mas isso não quer dizer que a situação está menos grave, e sim que o noticiário tem voltado todas as suas atenções para a Copa do Mundo. O evento, aliás, que já trouxe até agora cinco jogos para a capital e, com isso, dezenas de milhares de torcedores do mundo todo, fez com que a retirada de água do Sistema Cantareira, principal reservatório da região metropolitana, aumentasse 64% nas duas últimas semanas.
Além disso, a quantidade de chuva prevista para o mês de junho foi bem abaixo da média. O sistema que abastece 30 milhões de pessoas atingiu 20,4% de sua capacidade nesta terça-feira 1º. Estudo apresentado pelo Consórcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ) indica que o volume útil do Cantareira chegará a zero entre os dias 7 e 8 de julho, ainda antes do final da Copa. A partir de então, o reservatório deverá operar exclusivamente pelo chamado volume morto.
O levantamento aponta que, depois dessa data, quando o manancial passará a usar apenas a água da reserva técnica, transferida em maio depois de o governo paulista ter descartado o racionamento como solução, a água será suficiente para no máximo 100 dias de abastecimento. Dos quatro reservatórios que compõem o sistema, dois (Jaguari e Jacareí) já estão captando o volume morto. Daqui a dez dias, esse também deve ser o cenário para os outros dois (Cachoeira e Atibainha).
Quem explica é o pesquisador da Unicamp e consultor do consórcio Antônio Carlos Zuffo. "Daqui a 10 dias, os reservatórios que ainda não recorreram diretamente à reserva só terão em sua capacidade água vinda deste recurso, ou seja, a água que em condições normais é utilizada para o abastecimento já terá se esgotado", disse. "Isso indica o perigo de desabastecimento. Caminhamos a passos largos para o desabastecimento, estamos em plena crise, não dá para negar", alertou.
Desde o início da captação do volume morto, em 28 de maio, o nível de abastecimento registrado pelo Cantareira era de 26,7% de sua capacidade. Nesta terça-feira, pouco mais de um mês depois, ele atingiu 20,4%, uma queda diária de 0,18%. O volume útil, nesse período, sofreu brusca queda: de 8,2% para 1,5%.
"O cenário em que encontramos é cada vez pior, porque as medidas deveriam ter sido tomadas em janeiro, no máximo em fevereiro, mas nada de fato foi feito. E estamos alertando para a seca desde o ano passado", diz ainda Zuffo, em entrevista ao portal iG. "O governo precisa assumir que a crise é extremamente grave e decretar o racionamento o quanto antes para garantir que cheguemos ao período chuvoso ainda com água. Sem o Alto Tietê e o Cantareira, São Paulo literalmente para", afirma.
Sem dúvidas o tema, temporariamente esquecido, voltará a ser foco do debate depois do término do Mundial, e principalmente durante a campanha para as eleições de outubro, que definirá o próximo governador de São Paulo.

Najla Passos: Bola de cristal de Paulo Coelho se espatifou na Copa

publicado em 29 de junho de 2014 às 16:28

No livro do mago, deu Suiça
27/06/2014 – Copyleft
As 13 previsões mais catastróficas, e furadas, sobre a Copa no Brasil
É hora de relembrar, com algumas boas gargalhadas, as previsões mais pessimistas e catastróficas feitas por cartomantes de plantão que previram o caos.
Najla Passos, na Carta Maior
A Copa do Mundo não resolveu e não irá resolver todos os problemas do país. Aliás, nem é esta a função de um evento esportivo privado. Mas que o mundial atrai turismo e investimentos externos, não há mais dúvidas. Como também não há nenhuma de que ele mexe com autoestima de um país incentivado durante séculos a cultivar um inapropriado “complexo de vira-latas”!
Por isso, agora que o sucesso do evento já é reconhecido em todo o mundo, que o país já provou que pode ser organizar uma bela copa e que os turistas e os investimentos estrangeiros continuam chegando, é hora de dar boas gargalhadas com previsões mais pessimistas  feitas pelas cartomantes de plantão que tanto torceram contra a realização do mundial.
Das adivinhações às avessas do mago Paulo Coelho à mudança de planos da cineasta que fez sucesso afirmando que não viria ao Brasil, dos prejuízos contabilizados pelo tucanato ao delírio do protesto do chuveiro no “modo quentão”, do mau-humor da imprensa estrangeira à campanha permanente da Veja, confira as 13 previsões mais catastróficas – e furadas – sobre a Copa do Mundo no Brasil!
1 – O mago Paulo Coelho: “A barra vai pesar na Copa do Mundo”
Em entrevista à revista Época, publicada em 5/4/2014, o mago, guru e escritor Paulo Coelho, que mora na Suíça, disse que não viria ao Brasil assistir aos jogos da Copa do Mundo nos estádios, apesar de ter sido presenteado com os ingressos pela FIFA. “A barra vai pesar na Copa. A Copa será um foco de manifestações justas por um Brasil melhor. Os protestos vão explodir durante os jogos porque vai haver mais gente fora do que dentro dos estádios”, afirmou.
O Mago, que “previra” que o Brasil ia ganhar a Copa das Confederações, evita arriscar o resultado para o mundial. E apresenta certezas já desconstruídas pela realidade, como a de que o Brasil deveria disputar a final com a Espanha, eliminada na 1ª fase: “Agora não sei. Certamente o Brasil irá à final com a Alemanha ou a Espanha, duas seleções fortíssimas nesta Copa. A Argentina não. A Suíça vai surpreender. Eu ousaria dizer que a Suíça vai para as quartas. No futebol, você tem que ser otimista, não tem outra escolha. O Brasil tem chances de não ganhar”.
2 – Arnaldo Jabor: “A Copa vai revelar ao mundo a nossa incompetência”
No dia 6/6/2014, às vésperas da abertura da Copa, o cineasta Arnaldo Jabor, emcomentário para a Rádio CBN, ainda insistia no pessimismo em relação à Copa, com o objetivo claro de influir no processo eleitoral de outubro. “Nós estamos jogando fora a imensa sorte que temos, por causa de dogmas vergonhosos que não existem mais. Estamos antes do Muro de Berlim e a Copa do Mundo vai revelar ao mundo a nossa incompetência”, afirmou.


3 – Veja: “Por critérios matemáticos, os estádios da Copa não ficarão prontos a tempo”


Em 25/5/2011, a Veja previu o fracasso da Copa do Mundo no Brasil. E com a ajuda da matemática, uma ciência que se diz exata desde tempos imemoriais. Na capa, a data da logo do mundial era substituída por 2038. O intertítulo explicava: “Por critérios matemáticos, os estádios da Copa não ficarão prontos a tempo”.

De lá para cá, foram muitas outras matérias, reportagens e artigos anunciando o fracasso do mundial.
E mesmo com o início dos jogos, com estádios prontos e infraestrutura à altura do desafio, a revista estampou, na edição desta semana, uma nova catástrofe iminente: “Só alegria até agora – Um festival de gols no gramado, menos pessimismo nas pesquisas, mais consumo, visitantes em festa e o melhor é aproveitar, pois legado duradouro, esqueça”.

Melhor mesmo é torcer para que, quem sabe até 2038, a Veja aprenda a fazer jornalismo!

4 – Cineasta brasileira radicada nos EUA: “Não, eu não vou para a Copa do Mundo”
Em junho de 2013, a cineasta brasileira Carla Dauden, radicada em Los Angeles, nos Estados Unidos, fez sucesso na internet com o vídeo “No, I’m Not Going to the World Cup” (“Não, eu não vou para a Copa do Mundo”), que alcançou quatro milhões de curtidas. Mas antes mesmo da bola começar a rolar nos gramados brasileiros, a ativista já era vista circulando pelo país.
No Twitter, ela justificou a abrupta mudança de planos: “Não vim para ver a Copa, vim para falar dela. A Copa nunca vai ser a mesma para os brasileiros. As pessoas não vão se esquecer do que acontecerá por aqui”, diagnosticou, antes da abertura. A frase, de fato, parece fazer sentido. Mas por motivos opostos do que aqueles que a ativista advoga!
5 – Protesto do chuveiro no “modo quentão” vai causar apagão!


Até bem pouco tempo antes do início da Copa, eram muitos os setores que insistiam no risco iminente de blackout no país, da oposição à imprensa monopolista. Um grupo de internautas, porém, levou as ameaças infundadas a sério e decidiu criar uma página no Facebook destinada a acelerar o caos: usar os jogos da Copa para provocar um apagão generalizado no Brasil e, assim, boicotar a realização do evento.
A estratégia definida foi a utilização sincronizada dos chuveiros no “modo quentão”. “Chuveiros devem ser ligados na hora dos hinos nos jogos. A carga elétrica anormal derrubará a energia em bairros, cidades, regiões, estados e o país inteiro, em efeito dominó. Acompanhem os hinos por rádio, para maior garantia de sincronização”, diz a descrição do evento que conquistou pouco mais de 4,5 mil curtidas.

Dado o fracasso do evento, a página agora é utilizada para a troca de memes contra o PT, a esquerda e as pautas sociais e progressistas!


6 – Marília Ruiz: “Vai ser um vexame. Um vexame!”


No dia 26/1/2014, a TerraTV publicou um comentário da jornalista esportiva Marília Ruiz em que ela previa que, se o Brasil conseguisse realizar a Copa, já seria uma grande vitória. A antenada comentarista até admitia que os estádios ficariam prontos. Mas sem qualidade: “Se eu sentaria o meu corpinho numa cadeira recém colocada, com um parafuso a menos? Eu não sei”.

Do alto de sua experiência em cobertura de outras copas e de um etnocentrismo latente, ela também alertava que, mesmo fazendo sua Copa após a da África, o país passaria vergonha.
“Eu achei que a gente ia passar vergonha, que nós, brasileiros, que o país ia passar vergonha. Aí eu pensei, é até um alento porque a Copa do Brasil vai ser depois da Copa da África: ninguém vai lembrar muito como foi na Alemanha. Muito menos as pessoas vão lembrar como foi no Japão e na Coreia. E eu posso dizer porque estive lá. É uma vergonha ao cubo!”

Confira o comentário completo e saiba quem é que está passando vergonha!
7 – Álvaro Dias: “O país ficará com mais prejuízo do que lucro”
De todas as aves de mau agouro que bravatearam contra a realização da Copa no Brasil, o tucano Álvaro Dias, senador pelo PSDB, foi uma das mais barulhentas. Previu que o governo amargaria um prejuízo de mais de R$ 10 bilhões com a realização do evento, que os turistas não apareceriam, que os aeroportos não ficariam prontos e não dariam conta do fluxo de passageiros.
“O legado da copa do mundo me parece ser um grande fracasso. O país ficará com mais prejuízo do que lucro”, disse ele em entrevista à TV Senado, publicada no Youtube em 7/8/2013. Agora que os turistas chegaram, os investimentos estrangeiros entraram e o país tá fazendo bonito em mobilidade e infraestrutura, o senador desapareceu por completo do noticiário. Não se sabe se está esperando o evento acabar para profetizar outro apocalipse ou aproveitando as férias para curtir os jogos, como fez durante a Copa das Confederações!

8 – Ex-presidente FHC: “A Copa do Mundo como símbolo de desperdício”
Em artigo publicado no norte-americano The Wold Post, em 21/1/2014, o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso se referiu à Copa como símbolo do desperdício de dinheiro público. Tal como seu companheiro Álvaro Dias, perdeu a chance de ficar calado.  Segundo a Fipe, só a Copa das Confederações rendeu R$ 9,7 bilhões ao PIB brasileiro. A projeção de retorno da Copa é de R$ 30 bilhões. A Apex-Brasil, aproveitando a Copa do Mundo, trouxe ao Braisil mais de 2,3 mil empresários estrangeiros, de 104 países. A agência estima trazer US$ 6 bilhões em negócios para o Brasil.
9 – Redação Sport TV: do fracasso ao espírito de porco!
No Programa Redação Sport TV de 22/1/2014, o apresentador deu sonoras gargalhadas ao exibir a foto de um estádio da copa ainda sem gramado e fazer previsões catastróficas sobre o evento. Na edição de 26/6/2014, o tom mudou completamente: um outro apresentador mostrou como a imprensa internacional elogiava o evento e ouviu do entrevistado Ruy Castro: “A nossa imprensa foi rigorosamente espírito de porco antes do evento começar”.

Confira o vídeo com os dois momentos e os dois humores do Sport TV


10 – Governo alemão: “O Brasil é um país de alto risco”
Há seis semanas do início da Copa, o Ministério de Assuntos Exteriores da Alemanha divulgou um relatório pintando uma imagem desoladora do Brasil, descrito como um país ode as leis não são respeitadas e o turista corre o risco de ser roubado, sequestrado e se envolver em conflitos entre policiais e criminosos. O documento listava uma série de cuidados que os gringos deveriam tomar, incluindo atenção redobrada com as prostitutas, apontadas como membros e organizações criminosas, e vigilância contínua com os copos, para não serem vítimas de um “Boa noite, Cinderela”.
Pelo documento, até mesmo a seleção alemã estaria em perigo em terras tupiniquins. E não apenas dentro de campo. “Arrastões e delitos violentos não estão descartados, lamentavelmente, em nenhuma parte do Brasil. Grandes cidades como Belém, Recife, Salvador, Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo oferecem altas taxas de criminalidade”, ressaltava.

O Ministério ainda não divulgou relatórios sobre o número de alemães que vieram ao Brasil e o que estão achando da experiência. Mas quem circula pelas ruas brasileiras, repletas de gringos felizes e sorridentes, já sabe!
11 – Der Spiegel:  “Justamente no país do futebol, a copa poderá ser um fracasso”

Um dos principais semanários da Europa, a revista alemã estampou, um mês antes do início da Copa, a manchete “Morte e Jogos”, destacando que, justamente no país do futebol, a Copa poderia ser um fiasco, por causa dos protestos, da violência nas ruas, dos problemas do transporte coletivo, dos aeroportos e dos estádios. Praticamente um alerta vermelho recomendando que os europeus não viessem ao Brasil.

Mas os turistas vieram e estão adorando.
A imprensa estrangeira também: o jornal norte-americano The New York Times, fala em “imenso sucesso”.
O francês Le Monde, em “milagre brasileiro”. O espanhol El País diz “não era pra tanto” para as previsões catastróficas.
A revista inglesa The Economist,  remenda que “as expectativas, que eram baixas, foram superadas”. A própria Der Espiegel, na edição desta semana, dá destaque para a animação da torcida e admite que os protestos em massa ainda não aconteceram.

12 – Ronaldo, o fenômeno: “Da vergonha à constatação de que a Copa é um sonho”

Na véspera do início do mundial, o ex-atacante Ronaldo se disse envergonhado com os atrasos das obras da Copa. Mas, membro do Comitê Organizador Local da FIFA que é, defendeu a entidade e culpou o governo Dilma por todos os problemas. “É uma pena. Eu me sinto envergonhado porque é o meu país, o país que eu amo. A gente não podia estar passando essa imagem”, disse à Agência Reuters o cabo eleitoral e amigo do senador Aécio Neves, candidato do PSDB à presidência.
Agora, consolidado o sucesso do evento, tenta mudar o discurso. Em coletiva nesta quinta (26), procurou se justificar. “Não critiquei a organização da Copa, até porque eu faço parte dela. Disse que poderia ser muito melhor se todas as obras de mobilidade urbana tivessem sido entregues”, remendou. ”Vivíamos um clima muito tenso, com a população muito descontente. Começou a Copa, e agora estamos vivendo um sonho”, concluiu.

 

13 –  O vira vira lobisomem de Ney Matogrosso


De passagem por Lisboa, em 11/5, Ney Matogrosso resolveu usar a Copa para criticar duramente a política brasileira na TV ATP. Só esqueceu de estudar, primeiro, os argumentos. “Se existia tanto dinheiro disponível para gastar com a Copa, por que não resolver os problemas do nosso país?”, disse ele, desconhecendo que, desde 2010, quando começaram os preparativos para a Copa, o governo já investiu R$ 850 bilhões em saúde e educação, enquanto os investimentos totais no mundial – incluindo federais, locais e privados – atingem R$ 25,6 bilhões.
Foi ácido quanto à construção dos estádios que, segundo ele, irão virar “elefantes brancos” e não serão usados para mais nada. Embolou dados, números e fatos em vários argumentos. Acabou sustentando uma visão preconceituosa sobre as classes populares. Questionado se há uma maior consciência dos pobres em exigir seus direitos, concordou: “O escândalo é tamanho que até essas pessoas param para refletir”.

A Folha acorda para a “esperteza” do Cantareira

2 de julho de 2014 | 12:14 Autor: Fernando Brito
cantareirafolha
A matéria mais lida, neste momento, no site da Folha de S.Paulo, no noticiário local,  é  a que diz que o Sistema Cantareira esvazia em ritmo mais rápido o que este  blog  já tinha antecipado na segunda-feira.
O que não é nenhum mérito, por as informações estão todas disponíveis, bastando se interessar pelo assunto, que não parece ser o caso mais frequente na imprensa paulista.
Mas a matéria sai mais atrasada ainda, porque o cenário que aterroriza os técnicos – o de uma queda de 0,2% diários no nível da água remanescente – já está instalado e vai prosseguir se agravando, provavelmente, em toda a primeira quinzena de julho, porque não se prevêem senão garoas esparsas na região dos mananciais do Sistema.
A água afluente no Sistema caiu a menos de míseros 2,5 m³ por segundo nos dois primeiros dias de julho e assim vai permanecer (provavelmente, piorar) por alguns dias. Em junho, a média ficou em 6,6 m³?s. Julho, nas médias históricas, ainda é um mês menos seco que agosto e setembro, mas isso é tão pouco que qualquer chuva mudaria muito o número, mas essa redução brutal equivale, em 30 dias,  a 10 bilhões de litros de água.
Como diz a Folha, acendeu uma luz de alerta na Sabesp. (Acendeu? Agora?)
Alckmin anunciou ontem novas “gambiarras”, emendando canos para aproveitar as águas dos sistemas Rio Grande e Guarapiranga no abatecimento da área servida pelo Cantareira. Agora, depois de seis meses de seca, porque preferiu soltar fumaça com a onírica transposição de águas do Rio Paraíba do Sul.
E anunciou porque está ficando evidente que o “alívio” dado à região com o desvio das águas do Sistema Alto Tietê – o segundo maior da região metropolitana – está “matando” também estes outros reservatórios, que perderam um sexto do volume – de 30,7% para 25,5% – nos últimos 30 dias. E não poderia ser diferente, porque os mananciais deste e do Cantareira estão em regiões próximas, sujeitas ao mesmo regime de (falta de) chuvas.
É claro que ninguém pode prever se e quando haverá o esgotamento das reservas do tal “volume morto”, tanto por causa do regime de chuvas ( tão pequeno que qualquer precipitação pode mudar) quanto pelo fato de que o volume previsto para o bombeamento ser impreciso, por ser feito – no caso do reservatório Jaguari/Jacareí sobre uma lâmina d’água muito fina e, portanto, estar sujeito a redução por represamentos, assoreamentos não detectados e pela própria evaporação, com temperaturas mais elevadas. Já há uma draga trabalhando em Joanópolis para “abrir” trechos da represa que estão ficando isolados.
Uma coisa, porém, é previsíbilíssima: São Paulo está sendo levada a um suicídio hídrico onde só o que se ainda vai saber é a duração do suplício.
Porque está reduzida a algo como uma pessoa que vive no limite do cheque especial, torcendo para que o “dia do pagamento” chegue antes de estourar o limite do endividamento.
E que, se conseguir, claro, já começa o mês seguinte “falida”, porque tem de repor aquela quantia e viver com o pouco que sobrar, se sobrar.
O “dia do pagamento” para Geraldo Alckmin é o primeiro turno das eleições, ou o de um eventual segundo, ideia que faz ele, por essa e por outras, tremer.
Será que ele vai receber?
Porque São Paulo, com ele ou sem ele, em outubro, novembro, dezembro ou janeiro, se não ganhar na Loteria de São Pedro, vai ficar na seca.

Desculpe Dilma


247 - Intratável com o Brasil durante a preparação para a Copa do Mundo, Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, mudou de tom ao falar sobre o desempenho do Mundial.
Em entrevista ao programa "Seleção SporTV", o dirigente diz que o país irá cumprir com todos os requisitos para organização da competição.
“Acho que, sem dúvida, é a melhor Copa do Mundo quando se fala em futebol. Desde a primeira fase, temos o maior número de gols de 1982. Temos muitas surpresas, como a Costa Rica. É uma fantástica Copa do Mundo. Mas o que estamos vendo nas ruas, nas cidades onde estão acontecendo os jogos é o que todo mundo esperava do Brasil. Nós chegamos ao país do futebol, onde o futebol é uma religião. Esperamos algo singular, que vamos lembrar para sempre. Acho que o Brasil está no caminho para entregar tudo o que nós esperávamos”, disse.
O dirigente da Fifa diz que o sucesso da Copa superou, inclusive, os inúmeros problemas que foram apontados em meio aos preparativos:
“É hora de curtir o melhor do futebol e olhar quais os times que chegarão na semifinal e final. Acho que fora do campo tivemos alguns pequenos problemas dentro dos estádios. Muitas coisas precisavam ser finalizadas, mas assim que chegamos e começaram os jogos não tivemos problemas. Superamos aquilo que esperávamos. Tenho curtido a Copa do Mundo e não estou estressado. Acho que já vi 15 jogos viajando pelo Brasil e vou ver os próximos jogos para ter certeza que posso ficar feliz, assim como todos também deverão ficar”, completou.
Ele defendeu ainda o legado da Copa para o país: “O prefeito de Manaus e o governador do Amazonas estão impressionados. Podem existir voos entre Madri e Manaus, diretos. Isso significa que Manaus ganhou com a Copa do Mundo, o turismo vai crescer. O mais importante é usar o estádio, não deixar que ele fique vazio. Mas, quando eu vejo Brasília, e as críticas que foram feitas. A quantidade de eventos feita entre a Copa das Confederações e a Copa do Mundo foi muito boa. Mesmo que o estádio não pertença a um clube, pode ser usado, com apoio da CBF e da iniciativa privada. A CBF pode garantir que a seleção não jogue só no Rio ou em São Paulo, mas também em Brasília e Manaus. O futebol brasileiro agora será jogado em estruturas do mais alto nível. Isso vai ajudar o futebol brasileiro, que está entre os seis melhores do mundo, seja ainda melhor”.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Assessor do Aécio quer privatizar Universidades Públicas! Pode isso, produção?

Pode ser que você não lembre, caro leitor. Pode ser que você seja muito novo, ou que nunca tenha parado para pensar sobre isso, mas houve uma época em que o Brasil não construiu universidades durante muito tempo. Sim: o Muda Mais procurou, procurou, procurou, mas não achou nenhuma universidade construída durante a gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (link is external), entre 1995 e 2002 (se você achar, manda pra gente!). Diferente do período dos governos Lula e Dilma, que terminará 2014 com 18 universidades e o recorde de 1 milhão de alunos em universidades públicas.
Certo, Muda Mais, e por que estamos relembrando isso? Ah, explicamos agora. O candidato tucano à presidência da República,  Aécio Neves - correligionário e amigo do FHC - ,muito fala sobre a importância do crescimento do ensino superior e técnico no Brasil (será que ele não ouviu falar sobre os 8 milhões de matriculados no Pronatec, criado pela Dilma? Ou até das 18 universidades federais e 173 campi construídos nos últimos 12 anos?), mas se esquece que o povo tem memória.
O seu assessor e integrante da agenda política e econômica (link is external), Samuel Pessoa, em artigo publicado no último domingo (29) na Folha de S. Paulo, defendeu integralmente a privatização das Universidades Públicas no Brasil (link is external), como você pode ver no trecho abaixo do texto, intitulado "Universidade Paga":
O ensino universitário deve ser pago. Note que esse fato independe de a instituição de ensino superior ser legalmente pública ou privada.
Em seu texto, o economista sugere o pagamento das mensalidades através do Fundo de Financiamento Estudantil (FIES), e esquece de grande parte da população pobre do país que só conseguiu entrar nas Universidades Públicas por meio da política de cotas (link is external), criadas no Governo Lula. Pessoa esquece também da criação do Prouni, que atende cerca de 3 milhões de pessoas no país, com bolsas de estudos parciais e integrais (e o DEM - que é a mesma coisa do PSDB - é contra...).
Pessoa reproduz a crença do seu partido, o PSDB: a mercantilização do ensino superior. Para o PSDB, o ensino é moeda de troca - ou de investimento: apenas quem é capaz de pagar tem direito a formação. Uma premissa bem diferente do que se tem visto nos governos mais recentes e progressistas do país: a universalização e interiorização das universidades e escolas técnicas no país, fomentando o desenvolvimento econômico e cultural de microrregiões, estimulando a estruturação setorial do país e a educação do seu povo.
O Muda Mais defende a universalização da educação no Brasil como prioridade e agenda primária de nossos governantes. A possibilidade de retrocesso, a privatização e a exclusão de milhões de brasileiros desta nova realidade que estamos vivendo não condiz com o Brasil que pode seguir em frente, falando do futuro.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

O que aconteceu com os roqueiros dos anos 80? Leoni, o único que não virou reaça, fala ao DCM



Leoni (esq.) com sua antiga banda
Leoni (esq.) com sua antiga banda nos anos 80

O carioca Carlos Leoni Rodrigues Siqueira Júnior, conhecido somente como Leoni, tem uma carreira dedicada ao pop rock. Fundou e foi baixista e compositor do Kid Abelha entre 1981 e 1986, período em que a banda tornou-se um fenômeno, colecionando discos de ouro. É autor de todos os principais hits (“Seu Espião”, “Como Eu Quero”, “Pintura Íntima”, “Fixação”, entre outras).
Saiu depois de um desentendimento. Fundou a banda Heróis da Resistência e, desde 1993, está em carreira solo. Tem parcerias com Cazuza (“Exagerado”), Herbert Vianna, Léo Jaime, Roberto Frejat, entre outros.
Aos 53 anos, Leoni é uma exceção, uma mosca branca, entre a imensa maioria de seus colegas de geração: uma “pessoa de esquerda”, como ele se define.
Roger, do Ultraje a Rigor, e Lobão são macartistas. Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, não fala coisa com coisa, especialmente em política. João Barone, baterista dos Paralamas do Sucesso, repete clichês sobre “corrupção” sem parar — sempre contra o PT, naturalmente. Tony Belloto, guitarrista do que restou dos Titãs, é autor de frases originais como “é uma merda pensar como o Brasil há 30 anos ou patina, ou piora”. A lista é longa.
“Na época da ditadura, tínhamos um inimigo comum. Quando acabou, percebemos o que cada um pensava”, diz Leoni. Ele conversou com o DCM sobre música, política, seus companheiros dos anos 80 e o que Renato Russo e Cazuza estariam pensando dessa salada.
Por que a sua geração está ficando reacionária? 
Não acredito que todos os músicos da minha geração tenham se tornado conservadores… Todo mundo tem direito a ter opinião. O Roger sempre foi liberal e capitalista porque ele é um defensor do livre-mercado. Ele acredita numa sociedade nos moldes da dos Estados Unidos. Por isso, não está sendo desonesto com as pessoas hoje em dia. Ele era contra a ditadura, mas sempre foi capitalista. Até “Inútil”, o hino do Ultraje a Rigor nos anos 80, era uma música que tem a cara dele, meio que menosprezando o povo brasileiro. Esse sempre foi o discurso dele. 
Por nossas diferenças, eu tive vários debates com ele por email. O único problema é que ele perde a cabeça com gente que não concorda com ele e se descontrola. Ele leva para o lado pessoal. Mas, se o debate permanece no alto nível com ele, é bom.
O Lobão é mais imprevisível. E te digo o motivo: o que ele gosta é da polêmica. Eu vejo ele fazendo mais polêmica do que música hoje, sinceramente. Tem também o problema das respostas das pessoas na internet, que é um local bom para debates felizmente. Nas redes sociais, se você não concorda com alguém em algo, você é idiota e deve morrer.
Na época da ditadura, tínhamos um inimigo comum. Quando acabou, percebemos o que cada um dos músicos pensava. O Roger e o Lobão eram diferentes da esquerda, por exemplo. Tem gente que se tornou mais liberal com o tempo. Algumas pessoas acreditam mais numa democracia capitalista, com serviços públicos aqui e ali, mas com a economia privatizada funcionando. É diferente do que eu penso, porque eu quero serviços do estado que ajudem os pobres.
O rock não é, supostamente, um estilo rebelde…?
O rock, sobretudo o americano e o inglês, sempre foi mais ligado aos movimentos libertários individuais do que os coletivos. A meta da música foi te levar a usar roupas, drogas e fazer sexo da forma que você quiser, no seu individualismo. O rock foi interessante pra caramba, revolucionou os costumes, mas ele continua desligado do meio social e dos problemas coletivos. Minha postura pessoal não é essa do rock.
Uma pergunta hipotética: como seria se o Cazuza ou o Renato Russo, que foram seus amigos, estivessem vivos hoje? Teriam virado reaças também?
O Cazuza, no final da vida, teve uma preocupação política com o Brasil e fez a música “Ideologia”. Mas ele foi mais revolucionário no comportamento, ao assumir sua homossexualidade. Não sei se estaria engajado politicamente.
O Renato Russo era mais antenado com política, mas ele era melhor escrevendo letras do que agindo. Suas letras eram metafóricas. O disco V do Legião, de 91, falava sobre os problemas do governo Collor, mas sem citar ninguém diretamente. Eram letras sobre quem perdeu dinheiro com os saques da poupança na época, além dos desempregados. Acredito que o Renato faria boas músicas sobre o que está acontecendo no Brasil ultimamente.
O que você pensa sobre os protestos?
É complicado. Agora eu tenho um desânimo por perceber que o movimento todo gerou uma oportunidade de apontar erros no país, mas não mostra soluções. Milhões de pessoas foram pra rua, mas se você perguntar para as pessoas o que devemos fazer pelo país, elas não sabem responder. Vejo a Primavera Árabe, que derrubou ditaduras e colocou outras no lugar. Não solucionou os problemas de lá, mas é bom saber que temos o poder de mobilização. É bom a gente saber que, se a gente se mexer, a coisa muda. Mas é educativo saber também que isso não basta. Temos que aprender a conversar.
O que é mais triste é que os políticos não se organizaram para executar uma reforma política. Era isso, no fundo, que as pessoas pediram na rua. O “pemedebismo” instalado no Congresso cria alianças de partidos por interesses e propaganda. O sistema está errado. Esse políticos não se organizaram nem para dar uma resposta frágil. A gente tem que ir fazer mais barulho.

Leoni
Leoni

Os protestos são da esquerda ou da direita? E as pessoas que se manifestam contra a Copa do Mundo agora?
Estar a favor das manifestações não é de esquerda ou de direita. Há até vertentes mais radicais se manifestando, como aquela extrema direita que quer acabar com o comunismo e o bolivarianismo para colocar quase uma ditadura militar no lugar. Outros dizem que a extrema esquerda quer acabar com o capitalismo confiscando propriedades com a tomada de poder. E eu já vi gente se manifestando na rua porque há corrupção no país. Eu não consigo categorizar essas pessoas politicamente e parece uma coisa de velho, com medo de ser roubado por todo mundo.
Agora, perto das eleições, vejo algumas simplificações. Se você acha a Fifa suspeita, muita gente acha que você odeia Copa do Mundo e o futebol. Se você gosta da Fifa, é um petralha que gosta do governo. As coisas andam mais confusas ultimamente.
Qual é o seu balanço sobre a política cultural do governo Dilma?
Na parte cultural dos governos do PT, o de Lula foi bem melhor que o de Dilma, com o Gilberto Gil e o Juca Ferreira no Ministério da Cultura. O Gil ampliou os investimentos no ministério. O ex-ministro abriu um diálogo como eu não tinha visto antes. Cultura não é só história, dos grandes autores, mas sim toda a criação que fazemos hoje. Veio o governo Dilma e a ministra Ana de Hollanda interrompeu os avanços do setor. Ela achava que a cultura cigital era uma “brincadeirinha” na internet, por exemplo.
A ministra Marta Suplicy assumiu agora e nós conseguimos a aprovação do projeto Cultura Viva, criando pontos de encontro em comunidades populares para produção criativa. Essa me parece uma mudança de postura. Mesmo assim, acho que o governo Lula foi mais ousado culturalmente até agora.
De resto, acredito que o problema real dos governantes são os conchavos e as alianças ruins para se beneficiarem, prejudicando a sociedade. Esse método foi criado pelo PMDB e pelos congressistas do chamado baixo clero, que querem receber agrados.
As maiores críticas ao PT não vem da direita, mas de ex-petistas decepcionados com o governo. Eu não sei se o PT conseguiria governar sem alianças, mas as reformas precisam acontecer. Fica o aprendizado: As coisas não funcionam do jeito que gostaríamos. Os únicos dois partidos que vejo falar em reforma política são o PT e o PSOL.
Como a Internet mudou a música brasileira?
Agora a gente nunca teve tanta diversidade e riqueza musical. Até aparecer a internet, as gravadoras, que eram poucas, detinham tanto o monopólio da produção quanto o da distribuição. Não tinha como entrar em estúdio e já lançar algo. Era caro pagar produção, capa, fabricação, vinis e a distribuição física para o país inteiro, com jabá para rádios e pra todo mundo que precisasse. Se você não tinha gravadora, você estava fora do negócio.
Isso era ruim, mas não tão ruim a partir dos anos 80. A partir da minha geração, os selos independentes americanos começaram a ser vendidos para conglomerados de mídia. A Warner se transformou na Time Warner. Ocorreram várias fusões e o único interesse da indústria musical se tornou o lucro. A qualidade caiu para vender mais, e as músicas comerciais ficaram mais padronizadas. Depois da moda do rock, veio axé, lambada, pagode, sertanejo e depois até voltou o pagode.
Na era da internet, a gente pode fazer a nossa própria música. A represa das gravadoras se rompeu. Tem gente fazendo de tudo no Brasil. Cada cidade tem uma cena musical interessante e própria. Antigamente a coisa era mais concentrada no eixo Rio – São Paulo. O Brasil é grande e as pessoas sequer conhecem o mínimo. O músico de hoje também não precisa agradar muita gente, mas chamar atenção é mais difícil. Não dá pra ouvir tanta gente talentosa junto, e muitos acabam passando desapercebidos. O negócio da música pode ir mal, mas a música em si vai muito bem.
Pedro Zambarda de Araujo
Sobre o Autor
Escritor, jornalista e blogueiro. Atualmente escreve sobre tecnologia e games no site TechTudo. Teve passagem pelo site da revista EXAME. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, estuda filosofia na FFLCH-USP.