quinta-feira, 6 de março de 2014


Parlamento da Crimeia aprova proposta de adesão à Rússia

Parlamento da Crimeia aprova proposta de adesão à Rússia
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Reuters

Os deputados da Crimeia aprovaram esta quinta-feira por 78 votos e oito abstenções uma proposta formal de adesão da República à Federação Russa. O texto refere explicitamente a "entrada na Federação Russa com os direitos de um membro da Federação Russa" cita a agência de notícias RIA. Um referendo sobre os destinos da República foi antecipado para dia 16. O Kremlin já confirmou que o Presidente Putin foi informado da decisão dos deputados da Crimeia. Kiev reagiu dizendo que o referendo é ilegal.

"Esta é a resposta à desordem e ilegalidade em Kiev" disse Sergei Shuvainikov, membro da Assembleia da Crimeia. "Iremos decidir nós mesmos o nosso futuro."

O Parlamento ucraniano, dominado por pró-russos, aprovou a realização do referendo no próximo dia 16 para validar a decisão de adesão à Rússia, antecipando a consulta já antes marcada para dia 30 de março.

Os eleitores poderão escolher entre uma adesão à Federação Russa e uma autonomia reforçada da Crimeia, anunciou o deputado Grigori Ioffe.
Moscovo de braços abertos
Também esta quinta-feira foram anunciadas duas iniciativas legislativas russas aparentemente destinadas a facilitar a adesão da Crimeia aos territórios controlados por Moscovo.

O primeiro ministro russo Dmitri Medvedev afirma estar em estudo uma simplificação dos pedidos de cidadania russa para cidadãos que tenham o russo como língua materna e que sejam oriundos de quaisquer antigas regiões soviéticas, como é o caso da Ucrânia.

Um legislador, Sergei Mironov afirmou por seu lado à agência russa de notícias Itar-Tass que está a dar os toques finais numa proposta de lei igualmente para simplificar a adesão à Federação Russa de "partes de Estados estrangeiros" a qual, admite Mironov, poderá ser aprovada já para a semana.

Putin reuniu de emergência com o seu Conselho de segurança, tendo abordado o pedido formal de adesão da Crimeia à Federação Russa, anunciou o porta-voz da Presidência.
Pró-russos dominam Crimeia
A península da Crimeia pertence à Ucrânia mas é uma república autónoma e a sua população é maioritariamente de origem russa. A sua base naval de Sebastopol aloja a frota russa do Mar Negro.

Desde sexta-feira que tropas russas foram enviadas para a zona, alegadamente, de acordo com Moscovo, para proteger a população russófona de extremistas nacionalistas ucranianos. Apesar dos protestos de Kiev e da comunidade internacional contra a ocupação da Crimeia, a República é atualmente controlada por forças pró-russas, sejam estas soldados russos não identificados, como afirmam populares e observadores, ou milícias populares formadas nos últimos dias que reforçaram as forças de segurança locais. As tropas ucranianas na zona que não se renderam estão cercadas nos seus quartéis por homens armados.

Moscovo considera que o nacionalismo de direita ucraniano tomou o poder em Kiev, após tumultos na praça Maidan da capital ucraniana, que acabaram com a fuga do Presidente eleito, o pró-russo Viktor Ianukovich.

A notícia da aprovação parlamentar da anexação da Crimeia à Federação Russa deverá marcar a reunião do Conselho Europeu desta manhã, que inclui antes uma reunião com o primeiro-ministro designado da Ucrânia.

John Kerry, secretario de Estado norte-americano deverá igualmente reunir em Roma com os ministros dos negócios estrangeiros da Grã-Bretanha, Alemanha, França e Itália, antes da Cimeira em Bruxelas.
fonte: rtp

quarta-feira, 5 de março de 2014

QUER FIRCAR BEM INFORMADO? NÃO LEIA OS JORNAIS DO BRASIL ELES APENAS MOSTRAM O QUE OS EUA QUEREM


Europa receia consequências de sanções à Rússia

Europa receia consequências de sanções à RússiaAlexei Druzhinin,Reuters, RIA Novosti, Kremlin

Quando os chefes de Estado ou de Governo europeus se reunirem em Bruxelas, quinta-feira, para debater a crise na Ucrânia, a aplicação de eventuais sanções à Rússia será pesada ao milímetro, contra os custos económicos de cada uma delas para a economia da UE. Ao contrário do que sucede com os Estados Unidos, as relações económicas entre a União Europeia e Moscovo são de interdependência e qualquer medida punitiva provocará danos colaterais nas economias dos 28. Razão de sobra para que os europeus se mostrem muito mais prudentes do que os americanos, na hora de afrontar os desígnios de Vladimir Putin.

No princípio da semana, os ministros dos Negócios Estrangeiros da União renovaram o apelo a uma solução diplomática para o conflito e acenaram a Moscovo com sanções económicas, no caso de não haver uma inversão da escalada na Crimeia até à data do Conselho Europeu.

A União Europeia é o maior parceiro comercial dos russos e também é o maior investidor naquele país. A Comissão Europeia estima que 75 por cento do investimento direto estrangeiro na Rússia venha da Europa. Isto poderia, à partida, representar uma enorme alavanca para pressionar Moscovo, mas a verdade é que é uma situação de dependência mútua.

Publicamente, os líderes europeus dizem que a ocupação de território ucraniano por forças pró-russas na Crimeia não ficará sem resposta. No entanto, fazem as contas e afastam do caminho os cursos de ação demasiado dispendiosos.
"Custos significativos"
É o caso da Grã-Bretanha, cujo primeiro ministro David Cameron avisou a Rússia de que enfrentaria “custos significativos” , nomeadamente, “custos políticos económicos e outras pressões”, no caso de prosseguir o seu curso de ação em relação à Ucrânia.

No mesmo dia, uma indiscrição pareceu mostrar os limites do empenhamento britânico. Um documento fotografado nas mãos de um alto responsável, a caminho de uma reunião em Downing Street, dizia que “o Reino Unido não deve apoiar, por agora, sanções comerciais ou fechar o centro financeiro de Londres aos russos”.

O mesmo documento, em grande parte legível na fotografia, confirmava que os governantes britânicos estão a considerar restrições à emissão de vistos e às deslocações de personalidades russas de relevo. No entanto, nele se afirmava que os ministros deveriam “desencorajar quaisquer discussões (por ex. na NATO) sobre preparativos militares de contingência".

O documento também contemplava a possibilidade de apoiar “trabalho de contingência da UE” no que respeita a fornecer à Ucrânia uma fonte alternativa de gás e petróleo “se a Rússia vier a cortá-los”.
Alemanha e Rússia: Interdependência é uma realidade
Se no caso de Londres é a saúde da City e do setor financeiro que provoca o temor de repercussões, no caso de Berlim são as importações e as exportações que pesam em qualquer medida que venha a ser decidida contra Moscovo.

A economia alemã está muito mais interligada com a russa do que sucede com os outros países europeus. O volume de comércio entre os dois países foi de 76,5 mil milhões de euros em 2013, (40,5 mil milhões em exportações russas para a Alemanha e 36 mil milhões no sentido inverso).

Embora Berlim seja o terceiro parceiro comercial mais importante de Moscovo, o inverso não se verifica, já que a Rússia aparece em 11º lugar entre os parceiros da Alemanha, logo atrás da Polónia.

Os alemães exportam principalmente para a Rússia maquinaria (23 por cento do total), automóveis e peças, (22 por cento), e produtos químicos (14 por cento). Em sentido contrário recebem gás natural e petróleo.

Também aqui a interdependência não é pequena. Quase 40 por cento do gás natural e 35 por cento do petróleo que a Alemanha utiliza vêm da Rússia.
Energia: o dilema da dependência
Se por um lado a economia russa depende, quase exclusivamente, da exportação de petróleo e gás (e em certa medida de cereais), também é verdade que um corte de fornecimento por parte de Moscovo, em retaliação contra as sanções, obrigaria os alemães a procurarem fontes alternativas. Estas existem, mas são mais dispendiosas, pelo que as empresas e o todo da economia germânica se iriam ressentir fortemente.

Os laços entre a economia germânica e a russa não se ficam por aqui. Cerca de 6,000 companhias alemãs têm negócios na Rússia, o que representa mais do que todos os outros países da UE somados. Cálculos recentes indicam que cerca de 300.000 empregos alemães dependam dos negócios russos.

Outros países do centro da Europa estão também fortemente dependentes do gás e do petróleo vindos de Leste. Razão para que os líderes europeus estejam a fazer tudo para favorecer a via do diálogo entre ucranianos e russos e, caso esta falhe, pareçam privilegiar, de momento, medidas simbólicas, o que chamam de sanções dirigidas contra pessoas individuais da esfera de Moscovo, evitando medidas mais abrangentes que teriam impacto na economia em geral.

Outras ações que estão a ser ponderadas passam pelo apoio económico às novas autoridades ucranianas, que já começou a materializar-se com a decisão europeia de disponibilizar a Kiev 11 mil milhões de euros para evitar a bancarrota iminente e ajudar a recuperar a economia. Este tipo de assistência  poderá ampliar-se nos proximos meses com a parceria dos norte-americanos e do FMI.
EUA dizem que sanções não funcionam sem a Europa
Menos dependentes da Rússia, os Estados Unidos parecem prontos a colocar em pratica de imediato sanções mais decisivas, que implicam congelamento de bens de bancos, instituições e indivíduos, e outras medidas que, em teoria, colocariam forte pressão sobre Vladimir Putin.

Mas os congressistas americanos que atualmente discutem as medidas avisam que estas não terão qualquer efeito se os europeus não se associarem a elas e tudo indica que, pelo menos de momento, a Europa não está preparada para ir tão longe.
fonte: rtp ( PORTUGAL)

Barão da nova mídia, do eBay, ajudou a derrubar o governo da Ucrânia

publicado em 5 de março de 2014 às 7:19

Os Estados Unidos queriam Castelo Branco no poder: e ele assumiu! (Arseniy Yatseniuk, na Ucrânia)
4 de março de 2014.
Oligarcas  triunfantes
Ucrânia, Omidyar e a agenda neo-liberal
 CHRIS FLOYD, no Counterpunch
1.
A intervenção ocidental na Ucrânia deixou a região, agora, à beira de uma guerra. A oposição política ao governo do presidente Viktor Yanukovych – um regime corrupto e bandido, mas como tantos outros regimes corruptos e bandidos que se vê hoje em dia, eleitos democraticamente — foi financiado em parte por organizações do governo norte-americano ou associadas a ele, como a National Endowment for Democracy (um velho veículo de golpes pró-Washington) e a USAID. Também recebeu apoio financeiro substancial de oligarquias ocidentais, como do bilionário Pierre Omidyar, fundador do eBay e financiador exclusivo do novo meio jornalístico “adversário”, o First Look, como conta o Pandodaily.
Yanukovych inflamou protestos massivos no fim do ano passado, quando recusou um acordo financeiro proposto pela União Europeia e escolheu, no lugar dele, um pacote de ajuda financeira de US$ 15 bilhões da Rússia. O acordo da EU deixaria a Ucrânia, então desesperada por dinheiro vivo, em uma camisa de força financeira, como a Grécia, e na realidade sem promessa de um caminho para eventualmente ingressar na UE.
Havia outra cláusula na proposta de acordo da UE que raramente foi divulgada: ela teria proibido a Ucrânia de “aceitar futuras ajudas dos russos”, como salientou Patrick Smith em um importante artigo publicado no Salon.com.
Era um acordo brutal do tipo pegar ou largar que deixaria a Ucrânia sem margem de manobra, incapaz de usar sua posição única entre o Leste e o Oeste para sua própria vantagem no futuro, ou incapaz de conduzir sua política externa e econômica como achasse melhor. Yanukovych preferiu o acordo russo, que dava à Ucânia dinheiro vivo imediatamente e não impunha as mesmas restrições draconianas.
Foi uma decisão política. Pode ter sido a decisão política errada; milhões de ucranianos acharam que ele estava errado.
Yanukovych, que já não era popular antes do acordo, provavelmente seria expulso da presidência pela via democrática nas eleições nacionais marcadas para 2015. Mas as demonstrações de desagravo em relação a essa decisão política cresceram e se tornaram um grito pela mudança de governo.
Enquanto isso, nos bastidores, Washington estava manobrando para colocar no poder seu candidato predileto, Arseniy Yatseniuk, como ficou bem claro com o vazamento da conversa gravada entre a subsecretária de estado Victoria Nuland e o embaixador norte-americano na Ucrânia, Geoffrey Pyatt.
Vale à pena notar que quando Yanukovych finalmente caiu – depois que a oposição rejeitou o acordo fechado pela EU para instaurar um governo de coalização e marcar eleições para dezembro – Aseniy Yatseniuk efetivamente assumiu o controle do governo ucraniano, como planejado.
De acordo com todos os relatos, Viktor Yanukovych era um personagem repugnante que geria um governo repugnante, com o apoio de oligarcas repugnantes que exploram o país para seu próprio benefício e o deixam empobrecido e caótico.
Nesse aspecto, ele não era muito diferente de seus antecessores, ou muitos dos que o suplantaram e que também têm apoio dos oligarcas e conexões duvidosas (veja o adendo abaixo). Mas em muitos casos, a ideia de apoiar uma derrubada inconstitucional do governo ucraniano, eleito livremente, com uma revolta baseada exclusivamente nas voláteis distinções culturais e linguísticas que dividem o país, parece uma receita óbvia para o caos e a briga.
Era certo também que isso provocaria uma resposta da Rússia. Foi, em outras palavras, uma política monumentalmente estúpida (como destacou Mike Whitney).
Smith acrescenta:
“A panelinha que dirige a política externa (dos Estados Unidos) continua totalmente comprometida com a propagação da ordem neoliberal em escala global e não admite exceções. Essa é a política norte-americana no século XXI. Ninguém pode alimentar ilusões (como essa coluna confessa já ter feito) de que a conduta dos Estados Unidos no exterior possa mudar por conta própria em resposta à leitura inteligente da ordem que veio à tona depois da guerra fria. Impor a ‘democracia’, ao estilo norte-americano, era a história dos Estados Unidos desde o começo, com certeza, e tem sido a missão desde que [presidente Woodrow] Wilson a definiu e mesmo antes que ele chegasse à Casa Branca. Quando a guerra fira acabou, nós começamos a década do bullying triunfalista – guerra econômica travada sob a égide do ‘Consenso de Washington’ – o que era a mesma coisa”.
A política norte-americana é baseada em – e depende de – uma ignorância arrogante, furiosa e obstinada a respeito das outras pessoas, de outras culturas, da história em geral, e até mesmo da história recente da própria política externa norte-americana.
As relações históricas e culturais da Ucrânia com a Rússia são altamente complexas.
A Rússia tem uma identidade nacional que vem da cultura que se desenvolveu em torno do que hoje é Kiev; de fato, de várias formas, a “Rússia” nasceu em Kiev.
Ainda assim, um dos primeiros atos dos revolucionários apoiados pelo Ocidente foi passar uma lei declarando o ucraniano como única língua oficial, apesar da maior parte do país falar russo ou Surzhyk, “uma mescla de ucraniano e russo (muitas vezes com pitadas de húngaro, romeno e polonês)”, como Peter Pomerantsev, do LRB, detalhou em excelente artigo sobre a riqueza e a complexidade linguística e cultural da Ucrânia.
Isso não significa dizer que os ucranianos não têm motivos para se preocupa com um abraço russo. Milhões de ucranianos morreram nos anos 30 por causa da fome causada por políticas desumanas impostas pelo governo de Moscou (apesar de o governo ser dirigido por um representante da Georgia, em nome da ideologia transnacional). Complexidade e volatilidade sempre estiveram presentes. Hoje, como diz Smith, muitos ucranianos enxergam espaço para relações mais próximas com o ocidente; os mais sensatos parecem preferir uma “terceira via”, nada de isso ou aquilo. Muito poucos querem uma ruptura definitiva com a Rússia.
Ainda assim, a todo o momento, o novo governo de Kiev, que tem o apoio do Ocidente, tem pressionado essas divisões voláteis defendendo políticas estritamente anti-russas enquanto os governos ocidentais fazem de conta que isso não terá consequências, nenhuma reverberação em Moscou.
E mais: as facções neofascistas que desempenharam um papel preponderante na revolta agora estão reivindicando que a Ucrânia se torne uma potência nuclear, depois de ter aberto mão das armas nucleares soviéticas em seu território, em 1994.
De fato, o líder da direita radical Oleh Tyahnybok fez do rearmamento nuclear sua plataforma presidencial para as eleições de poucos anos atrás. Agora o partido está dividindo o poder com o governo apoiado pelo Ocidente; será que em breve veremos uma Ucrânia somada ao ranking das nações nucleares? Com uma fronteira eriçada com a Rússia – como o holocausto por um fio entre a Índia e o Paquistão?
Mais uma vez vemos a cegueira estúpida da arrogância, quando o elitismo neoliberal do “consenso de Washington” continua a cometer seus erros pelo mundo afora.
2.
Agora nós estamos à beira de uma guerra pela Criméia. Aqui também existem complexidades históricas que são totalmente ignoradas pela narrativa da mídia.
A Criméia não era considerada parte da Ucrânia até que foi transferida por ordem administrativa do governo soviético em 1954, removendo-a das “repúblicas socialistas” russas e transferindo-a para a jurisdição das “repúblicas socialistas” ucranianas.
Quando houve o colapso da União Soviética, a Criméia se tornou uma república autônoma que operava sob a constituição da Ucrânia. Sua população é composta por 60% de russos, mas ainda assim o idioma dessa maioria perdeu status oficial por parte do governo em Kiev que tomou o poder por meios não constitucionais.
Nada disso justifica a mão pesada que Putin está adotando. Mas a Rússia dos tempos pós-soviéticos, sem ideologia transnacional, se tornou um estado altamente nacionalista.
Putin é um líder autoritário que agora baseia sua argumentação furada na “legitimidade” – e na dominação de sua panelinha brutal – da defesa do nacionalismo russo e de “valores tradicionais”.
É inconcebível que ele não fosse considerar as interferências óbvias do Ocidente na Ucrânia como um ato de provocação e atitude temerária que tem como alvo ele e seu regime, e que ele não reagisse à altura.
Então, aqui estamos. Caos, briga, ameaça de guerra – e a pesada fumaça da ignorância cobrindo tudo isso. Andamos novamente como sonâmbulos em direção ao desastre.
Deliberadamente promovendo tumulto sem a mais vaga preocupação com as consequências, ou com o sofrimento que ele causa agora e talvez a gerações futuras. (Pense no Iraque, por exemplo, ou na propagação da violência e do caos que já se alastrou por vários países a partir da intervenção nos assuntos internos da Líbia).
Mas por que estamos aqui? Ganância. Ganância e a sede de dominação.
Não vamos falar em “poder” porque essa palavra tem conotações positivas e pode também incluir um elemento de responsabilidade.
Mas os oligarcas e ideólogos, os militaristas e ministros que fazem parte desse episódio do Grande Jogo, de métodos duvidosos, não querem poder no sentido amplo e profundo.
O que eles querem é dominação, ser senhores de todos – fisicamente, financeiramente, psicologicamente. Entre os que estão no topo dessa situação, de todos os lados, não existe a menor preocupação com o bem comum dos demais seres humanos – nem mesmo daqueles com os quais têm alguma ligação por mero acidente histórico ou geográfico: idioma, nacionalidade, etnia.
A sede de tomar tudo e dominar supera todo o resto, apesar de toda a devoção que destila da retórica de todos os lados.
E se a guerra for evitada, qual é o provável resultado para a Ucrânia (além de viver em tensão eterna com um vizinho autoritário, ameaçado e cheio de ódio ao norte)? Smith nos diz: traição.
“Imediatamente após Yanukovych ser escorraçado de Kiev, a sedução começou a se transformar em traição. Os norte-americanos e europeus começaram a bater os pés com relação ao que fariam pela Ucrânia agora que a Rússia tinha fechado a torneira dos US$ 15 bilhões. Acontece que agora ninguém quer pagar a conta. Washington e a União Europeia estão empurrando o Fundo Monetário Internacional para a posição de líder do socorro do Ocidente. Se o passado serve de guia, os ucranianos vão conhecer agora a ‘terapia de choque’ que o economista Jeffrey Sachs tanto defendeu na Rússia, na Polônia e em todos os lugares depois do colapso da União Soviética. Sachs depois negou (desonestamente) ter feito este papel – é de se compreender dados os resultados calamitosos, notadamente na Rússia – mas a receita neoliberal é aplicada sem levar em conta realidades locais e os ucranianos estão a ponto de tomar sua dose”.
“É errado, como todo pensamento não histórico é. As ex-sociedades comunistas, especialmente no contexto Oriental, devem logicamente avançar primeiro para alguma forma de democracia social e então decidir se querem levar as coisas mais para a direita. O medo de Washington, evidente durante a guerra fria, era de que as democracias sociais provassem que elas funcionam – o que apresentaria uma ameaça ainda maior, paradoxalmente, do que o modelo soviético. Os ucranianos que são a favor da inclinação para o ocidente, que idealizaram a União Europeia, parecem supor que eles vão desenvolver um sistema mais ou menos entre o dos escandinavos e a Alemanha, como os europeus do leste previram anteriormente. Eles então vão ficar realmente chocados com o acordo do FMI. Será amargo, depois das promessas traiçoeiras cuidadosamente apresentadas”.
Aconteça o que acontecer, parece certo que as oligarquias – ocidentais, ucranianas, europeias ou russas continuarão exercendo dominância – porém, algumas das que defenderam com veemência o lado perdedor podem ser afastadas. Ainda assim, a maior parte dos oligarcas, em todas as nações, é, em geral, especialista em jogar dos dois lados ou em trocar de lado quando necessário.

O Murdoch do século 21
É tentador ver esse princípio aplicado ao caso de Pierre Omidyar, proeminente financiador privado dos esforços americanos de custear e dirigir a oposição ucraniana ao poder, como reportou Pandodaily.
Omidyar, que criou o eBay e agora é dono do PayPal, se tornou muito conhecido recentemente – e foi universalmente elogiado – por ter se comprometido com US$ 250 milhões para o First Look, um grupo editorial dedicado ao jornalismo antagonista.
Ele montou uma equipe de estrelas para sua empreitada, incluindo Glenn Greenwald, Matt Taibbi, Jeremy Scahill, Marcy Wheeler e outros de reputação semelhante. Não seria exagero dizer que ele se tornou um genuíno herói da esquerda, que tendeu a desconsiderar qualquer crítica ou questionamento a respeito de sua nova iniciativa, ou de suas operações mais amplas, como reclamação de perdedores invejosos – ou como ação disfarçada do Estado que estaria tentando tirar do eixo essa perigosa ameaça ao governo da elite.
Ainda assim, as amplas operações de Omidyar – incluindo as da Ucrânia – não casam bem com a imagem de paladino dos antagonistas ou de perigo para o sistema.
Deixando de lado as circunstâncias problemáticas do ativismo antagonista se tornar dependente das vontades pessoais de um bilionário, existe o fato de que a visão filantrópica de Omidyar se baseia em grande parte na financeirização dos esforços para aliviar a pobreza – de transformá-los de programas de caridade ou do governo em iniciativas que visam fazer dinheiro e premiam investidores com bons retornos enquanto quase sempre deixam os recipientes em situação ainda pior do que estavam antes.
De acordo com a reportagem da nsfwcorp.com, aí se incluem iniciativas de microcrédito na Índia que levaram a suicídios em massa entre os devedores pobres e programas “empreendedores” que deram a favelados direito de posse de pequenos lotes – ainda em situação de penúria, eles os vendem por uma ninharia a grandes operadores que então eliminam os guetos para erguer projetos lucrativos enquanto os pobres têm que procurar outra favela.
Nesse projeto, Omidyar se associou a Hernando de Soto, um direitista seguidor da “doutrina do choque” que foi conselheiro do ditador peruano Alberto Fujimori; de Soto também é aliado dos irmãos Koch [bilionários de extrema-direita dos Estados Unidos]. Omidyar também jogou dinheiro em esforços para lucrar com a privatização da educação pública dos Estados Unidos e de outros lugares, forçando as crianças de lugares pobres do mundo a pagar pela educação fundamental – ou ficar sem ela.
Então, Omidyar parece ser parte integrante da “ordem neoliberal” que, como Patrick Smith mostrou acima, os Estados Unidos estão promovendo “em escala global, sem admitir exceções”.
Assim, não é surpresa vê-lo tentando fazer esse papel de levar essa ordem à Ucrânia de acordo com os esforços declarados e as maquinações de bastidores do governo dos Estados Unidos.
Omidyar é, abertamente, um firme defensor da ordem neoliberal – privatizar bens públicos para o lucro individual, converter caridade e ajuda estatal em empreendimentos lucrativos para um grupo seleto de investidores e trabalhar para eleger ou apoiar governos que comunguem dessas políticas.
Nenhuma dessas atividades é ilegal. Nenhuma delas necessariamente impede que ele também financie o jornalismo independente. Mas não posso achar insensato trazer esses fatos à tona.
Não acho insensato aplicar a este oligarca bilionário a mesma desconfiança que você aplicaria a qualquer outro.
Por exemplo, se um website do First Look publicar uma forte denúncia a respeito das terríveis maquinações de outros oligarcas ou empresários, não acho insensato as pessoas procurarem saber se o alvo por acaso é um rival de Omidyar de alguma forma ou se a remoção ou humilhação dele ou dela de alguma maneira beneficiaria os negócios e os interesses políticos de Omidyar.
Se faz o mesmo com o New York Times e sua agenda óbvia pró-establishment, ou com os jornais de Rupert Murdoch, e assim por diante; o contexto mais amplo ajuda o leitor a colocar os artigos em perspectiva, e dar a eles o peso correspondente.
Isso não significa que os fatos desta ou daquela matéria não sejam verdadeiros; significa que não devem ser engolidos crus, sem visão crítica, sem a consciência de que existem outros interesses em jogo.
Isso parece tão básico que quase dá até vergonha apontar. Ainda assim, quase todo mundo que levantou essas dúvidas a respeito do investimento de Omidyar em mídia foi logo execrado, às vezes ferozmente, por aqueles que em outras situações têm desconfiança evidente com relação ao Grande Dinheiro e suas agendas.
Muitos dos que estão atacando a reportagem do Pandodaily sobre Omidyar e a Ucrânia dizem que “este é o mundo em que vivemos” – um mundo dominado pelo Grande Dinheiro – e você tem que fazer o melhor possível com essas más condições.
E também, as empresas de notícias sempre foram propriedade de ricos e poderosos, o First Look não é diferente.
Exatamente. Então o First Look – propriedade exclusive de um bilionário neoliberal que, como disse Jeremy Scahill, tem muito interesse nas atividades diárias de sua organização de mídia – deve ser objeto do mesmo padrão de escrutínio usado para avaliar qualquer outra empresa de mídia dos ricos e poderosos. Mas isso não parece estar acontecendo. Na verdade, é bem o contrário.
Acho que talvez haja um erro categórico aqui. Por causa da reputação dos que assinaram contrato com Omidyar, se cristalizou a ideia de que Omidyar está interessado em lançar luz sobre as maquinações secretas do estado de segurança nacional e suas tiradas imperialistas pelo mundo.
Mas as declarações de Scahill indicam que a “visão” de Omidyar é bem mais limitada. A entrevista de Scahill ao Daily Beast, citada pelo Pandodaily, é bastante reveladora. Abaixo, um trecho um pouco mais longo do que o reproduzido pelo Pando:
“O empreendimento terá uma separação menor entre o proprietário e o jornalista do que existe na mídia tradicional. Omidyar diz que quis fazer o projeto porque estava interessado em temas ligados à Quarta Emenda e eles estão contratando equipes de advogados não apenas para evitar que os funcionários sejam processados, mas também para pressionar ativamente os tribunais em relação à Primeira Emenda, para “forçar o confronto com o estado nesses temas”.
“(Omidyar) me parece sempre meio político, mas acho que a estória da Agência de Segurança Nacional (NSA) e das guerras se expandindo colocou a política em uma posição bem mais proeminente na existência dele. Esse não é um projeto paralelo que ele está tocando. Pierre escreve mais no nosso sistema interno de mensagens do que qualquer outro. E ele não está micro administrando. Esse cara tem uma visão. E a visão dele é confrontar o que ele vê como um assalto à privacidade dos norte-americanos”.
Omidyar tem uma preocupação apaixonada com as interferências do governo na privacidade, diz Scahill, enquanto nota – meio abominavelmente – que o projeto terá uma “separação menor entre dono e jornalista do que na mídia tradicional”.
Você imaginaria que isso seria suficiente para fazer soar o alarme de um jornalista antagonista de longa data como Scahill, mas aparentemente não.
Em todo caso, toda a ideologia neoliberal de Omidyar se baseia na habilidade de indivíduos ricos em operar livremente, sem controle de governos, enquanto correm o mundo em busca de lucro. (E também, se acontecer, alguns benefícios sociais; mas se a iniciativa com fins lucrativos de um acaba levando centenas de pessoas ao suicídio, bem, c’est la vie, eh?).
Naturalmente, indivíduos ricos também querem viver livres da espionagem do governo enquanto conduzem seus negócios. Eles cooperam de bom grado com o Estado de Segurança Nacional quando os benefícios são mútuos, no caso de Omidyar e seus parceiros do governo na Ucrânia – mas eles querem que tudo seja feito nos termos deles.
Querem que as informações deles sejam mantidas sob o controle deles.
A deposição de um governo estrangeiro, a invasão de terras estrangeiras, o assassinato extrajudicial de pessoas pelo mundo, a militarização da política e da sociedade norte-americanas – isso realmente não os preocupa.
Na verdade, isso ajuda a expandir os parâmetros de negócios deles e a expandir sua ideologia neoliberal. Mas a ideia de que o governo talvez também os esteja espionando – ora, isso é intolerável.
A isso se deve resistir, deve haver “confronto” a respeito desse comportamento.
Eu tenho certeza de que os jornalistas contratados pelos 250 milhões de dólares do Omidyar produzirão um trabalho de valor, levantarão fatos úteis.
O Times também faz isso, e o Washington Post, propriedade de um oligarca também, assim como de vez em quando os jornais do Murdoch.
Mas não acho que o empreendimento do Omidyar foi criado para desafiar o status quo ou representar uma “ameaça” ao sistema que os veneradores deste herói estão procurando.
Por sinal, até mesmo Greenwald pede apenas “reformas” do sistema, “monitoramento real” do Estado de Segurança Nacional por parte dos legisladores – os mesmos comprados, vendidos, acovardados e dominados pelo Grande Dinheiro.
Eu honestamente não penso que o poder constituído se sinta ameaçado por um empreendimento montado por um dos seus que se limita e pedir “reformas” por “dentro” – especialmente quando seu único proprietário continua colaborando com os irmãos Koch, com ideólogos radicais de direita como Hernando de Soto e até mesmo com o Estado de Segurança Nacional em suas aventuras subversivas no exterior.
Os objetivos de Omidyar são limitados: proteger a privacidade dos indivíduos da intromissão do governo. Esse é um objetivo nobre e que vale à pena.
Mas com base em suas atitudes, ele está perfeitamente satisfeito se esse indivíduo, com sua privacidade protegida, avançar a penosa agenda neoliberal no resto do mundo, e em casa, em conluio com o Estado Nacional de Segurança se necessário.
Se Greenwald, Scahill, Taibbi, Wheeler e os demais estão também de acordo com esta agenda, isso é algo que vamos descobrir nos próximos meses.
***
Atualização: Por falar em oligarcas triunfantes, depois que este artigo foi escrito, a seguinte notícia me chegou pelo New York Times:
“O gabinete do Presidente Oleksandr V. Turchynov anonciou duas indicações, no domingo, de dois bilionários – Sergei Taruta em Donetsk e Ihor Kolomoysky em Dnipropetrovsk – e outros estavam sendo considerados para posições nas regiões do leste do país”.
“A estratégia é o reconhecimento de que os oligarcas representam a elite industrial e de negócios do país e exercem grande influência sobre milhares de trabalhadores no leste. Oficiais disseram que a esperança é de que eles possam dissipar desejos separatistas no leste”.
Como sempre, a situação é de vitória dos oligarcas desde mundo.
Fonte: viomundo

Na tentativa de derrubar o governo da Venezuela, Estados Unidos buscam “a faísca para a transformação social”

publicado em 5 de março de 2014 às 10:34

Carmona substituiu Chávez por três dias. Quem virá agora?
Agentes de desestabilização
Washington busca a troca de regime na Venezuela
por Garry Leech, no Counterpunch, em 04.03.2014
Tanto os protestos organizados quanto os problemas econômicos contra os quais os manifestantes protestam parecem ter sido orquestrados pela oposição com o objetivo de desestabilizar o país e derrubar o governo. Incapaz de ganhar o poder através do voto, a oposição venezuelana voltou-se para meios inconstitucionais para derrubar o presidente Nicolas Maduro.
Com apoio apenas limitado dos venezuelanos, a oposição se tornou dependente de ajuda externa dos Estados Unidos e da Colômbia, o aliado mais próximo dos Estados Unidos na América Latina. Os atuais protestos parecem representar a tática mais recente da campanha de desestabilização que Washington vem desenvolvendo contra a Venezuela por mais de uma década, inicialmente para derrubar o presidente Hugo Chávez e agora para derrubar seu sucessor, Maduro.
Desde o mês passado, manifestantes em várias cidades venezuelanas tem protestado contra os blecautes de energia e a falta de produtos básicos de alimentação. Mais de uma dúzia de pessoas morreram nos protestos. Enquanto eles são descritos pela mídia corporativa como manifestações espontâneas resultantes da crescente frustração com a incapacidade do governo de gerenciar a economia, um documento estratégico recentemente revelado sugere que os protestos são a tática mais recente da antiga estratégia de desestabilização orquestrada pela oposição com forças externas.
O documento, que foi obtido e publicado pela advogada Eva Gollinger, ilustra como as correntes manifestações na Venezuela foram orquestradas. Ele foi escrito pela FTI Consulting*, empresa baseada nos Estados Unidos, com duas organizações colombianas (Fundación Centro de Pensamiento Primero Colombia e a Fundación Internacionalismo Democrático) numa reunião de junho de 2013. Mark Feierstein, chefe das operações latino-americanas da Agência Internacional de Desenvolvimento dos Estados Unidos (USAID) e líderes da oposição venezuelana, incluindo Maria Corina Machado, Julio Borges e Ramon Guillermo Avelado participaram da reunião.
O documento pede o restabelecimento da democracia na América Latina colocando como alvos os líderes políticos “pseudo-progressistas” da Venezuela. De acordo com o texto, “o plano, aprovado por consenso com representantes valorosos da oposição ao governo de Nicolas Maduro, foca nestes objetivos com o forte apoio de várias personalidades globais, com o objetivo de retornar a Venezuela à verdadeira democracia e independência, que foram sequestradas por 14 anos”.
Em seguida propõe quinze ações, incluindo uma que diz “manter e aumentar a sabotagem que afeta os serviços para a população, particularmente o sistema elétrico, o que resulta em culpa do governo por ineficiência e negligência”. Outra ação busca “aumentar os problemas com a escassez de produtos da cesta básica”.
O documento vai adiante para especificar ações violentas de desestabilização, sugerindo “quando possível, a violência deve causar mortos e feridos. Encorajar greves de fome longas, mobilizações de massa, problemas em universidades e outros setores da sociedade agora identificados com instituições do governo”.
O plano também pede o recrutamento de “jornalistas e repórteres venezuelanos e internacionais da CNN, New York Times, New York Post, Reuters, AP, EFE, Miami Herald, Time, BBC, El Pais, Clarin, ABC e outros”.
Finalmente, o plano pede a membros da oposição que “criem situações de crise nas ruas para facilitar a intervenção de forças norte-americanas e da OTAN, com apoio do governo da Colômbia”.
O documento estratégico propõe um calendário de seis meses para as ações. É interessante que os atuais protestos começaram sete meses depois do plano ter sido desenvolvido.
O presidente Maduro, como seu predecessor Chávez, tem alegado repetidamente que as elites econômicas da oposição, que controlam a produção privada de alimentos, tem deliberadamente criado falta de produtos básicos ao cortar a produção, estocar alimentos e exportar para a Colômbia, criando a impressão de que o governo está gerenciando erradamente a economia e gerando protestos civis. O plano estratégico claramente sugere que a oposição joga um papel na criação da falta de alimentos e nos blecautes elétricos, ambos atribuídos publicamente a mau gerenciamento do governo.
As três entidades que aparecem no título do documento tem relação próxima com Washington. A FTI Consulting é uma empresa global de gerenciamento de risco baseada na região de Washington, enquanto as outras duas, baseadas em Bogotá, destacam o papel do ex-presidente colombiano Alvaro Uribe, um linha-dura que foi o aliado mais próximo de Washington na América Latina durante seus oito anos no poder (2002-2010).
Embora a estratégia não se refira ao governo dos Estados Unidos diretamente, levanta questões sobre a possibilidade da empresa norte-americana de consultoria e de duas organizações colombianas estarem atuando de forma encoberta em nome do governo dos Estados Unidos. Tal estratégia estaria de acordo com a longa campanha de desestabilização de Washington contra a Venezuela com o objetivo de conseguir mudança de regime. A campanha envolveu apoio ao golpe militar de abril de 2002 que derrubou o presidente Chávez**.
O plano fracassou quando o maciço apoio popular a Chávez forçou o exército venezuelano a reinstalar o líder eleito democraticamente três dias depois.
Depois do fracasso do golpe, Washington intensificou suas tentativas para desestabilizar a Venezuela ampliando o apoio às forças de oposição sob a desculpa de “promover a democracia”.
Pouco depois do golpe fracassado, Maria Corina Machado, uma importante líder da oposição envolvida no golpe, formou a organização não-governamental Súmate para organizar e promover o referendo revogatório para tirar Chávez do poder. Os Estados Unidos financiaram a Súmate através da USAID e do National Endowment for Democracy (NED).
A Súmate se encaixava bem no NED, que foi estabelecido em 1983 para “promover a democracia” e organizações da “sociedade civil” no exterior. Na verdade, os objetivos do NED tem sido os de dar financiamento para forças políticas pró-Estados Unidos na América Latina, África e Ásia de forma a enfrentar governos que desafiam interesses dos Estados Unidos. Com este objetivo, o NED assumiu o papel de desestabilização antes jogado pela CIA em países como o Chile, nos anos 70.
Alan Weinstein, um dos fundadores do NED, disse em 1991: “Muito do que fazemos era feito 25 anos atrás de forma clandestina pela CIA”.
Depois que o referendo revogatório fracassou na remoção de Chávez do poder, em 2004, os Estados Unidos ampliaram ainda mais seu apoio à oposição e às tentativas de enfraquecer o governo venezuelano.
Um telegrama secreto mandado pela Embaixada dos Estados Unidos na Venezuela a Washington, que foi publicado pelo Wikileaks, se refere ao papel do Office of Transition Initiatives (OTI), da USAID.
De acordo com o telegrama, “o embaixador definiu a estratégia de 5 pontos da equipe no país para guiar as atividades da embaixada na Venezuela no período 2004-2006… Os focos da estratégia são: 1) Fortalecer Instituições Democráticas, 2) Penetrar a Base Política de Chávez, 3) Dividir o Chavismo, 4) Proteger Negócios Vitais dos Estados Unidos, e 5) Isolar Chávez Internacionalmente”.
O telegrama segue notando que “este objetivo estratégico representa a maior parte do trabalho da USAID/OTI na Venezuela… Os parceiros da OTI estão treinando ONGs para se tornarem ativistas… 39 organizações focadas em ações públicas foram formadas desde a chegada do OTI; muitas destas organizações como resultado direito de programas e financiamento do OTI”.
O telegrama destaca como era a estratégia dos Estados Unidos de infiltrar a então base primária de apoio de Chávez entre os pobres: “Um mecanismo eficaz de controle chavista aplica vocabulário democrático para apoiar a ideologia revolucionária do bolivarianismo. O OTI vem trabalhando para enfrentar isso através de um programa de educação cívica chamado ‘Democracy Among Us’. Este programa interativo de educação funciona através de ONGs em comunidades de baixa renda. … O OTI apoia ONGs locais que trabalham em bases chavistas e com líderes chavistas… com o efeito desejado de afastá-los vagarosamente do Chavismo”.
Entre 2006 e 2010, a USAID gastou cerca de U$ 15 milhões na Venezuela com uma porção significativa do dinheiro usada para financiar programas universitários e workshops para jovens, sem dúvida com o objetivo de “afastá-los vagarosamente do Chavismo”.
O papel proeminente dos estudantes universitários nos atuais protestos sugere que a estratégia dos Estados Unidos funcionou.
Encarando a ajuda dos Estados Unidos a membros da oposição como violação da soberania da Venezuela, a Assembleia Nacional venezuelana aprovou uma lei em dezembro de 2010 proibindo o financiamento estrangeiro de atividades políticas — atividades que, ironicamente, também são ilegais nos Estados Unidos. Depois da aprovação da nova lei venezuelana, a USAID/OTI transferiu suas operações da Venezuela para Miami.
O Escritório para Iniciativas de Transição (OTI) da USAID foi criado em 1994 e seus objetivos são claros: obter a mudança de regime.
De acordo com a USAID, “os programas do OTI servem como catalizadores de mudança política positiva… Aproveitando janelas críticas de oportunidade, o OTI trabalha em países dados a conflitos para providenciar assistência rápida, flexível e de curto prazo tendo como alvo necessidades-chave de transição e estabilização… Os programas do OTI são desenhados individualmente para atender às necessidades mais importantes da transição, focando nas questões decisivas que vão definir o futuro do país… O OTI busca parceiros para projetos que vão fornecer a faísca para a transformação social”.
O governo dos Estados Unidos não depende apenas da USAID e do NED para solapar o governo venezuelano.
Um documento de 2007 da Agência de Segurança Nacional (NSA) tornado público no ano passado por Edward Snowden descreve “as prioridades da agência em 2007 para os próximos 12 ou 18 meses em termos de ‘signals intelligence’ (SIGINT) ou espionagem eletrônica”.
O documento lista seis “alvos duradouros”, seis países que a NSA acredita que precisam “ser alvos holísticos por causa de sua importância estratégica”.
A Venezuela é mencionada como um dos “alvos duradouros”, junto com a China, Coreia do Norte, Irã, Iraque e Rússia.
O objetivo da NSA na Venezuela era o de ajudar os “políticos dos Estados Unidos a evitar que a Venezuela atinja seu objetivo de liderança regional e que busque políticas que tenham impacto negativo nos interesses globais dos Estados Unidos”.
De seus escritórios em Miami, a USAID continou a apoiar as atividades da oposição venezuelana e seus aliados estrangeiros. O escritório do Solidarity Center [braço sindical do NED, ligado à central sindical norte-americana AFL-CIO] em Bogotá recebeu uma grande doação de U$ 3 milhões para dois anos em 2012, para operações não especificadas na região andina, inclusive na Venezuela. O Solidarity Center mudou suas operações venezuelanas de Caracas para Bogotá depois do golpe fracassado contra Chávez em 2002.
As atividades na Venezuela se tornaram impossíveis depois que foi revelado que o Solidarity Center financiou a Confederação Venezuelana de Trabalhadores (CTV), anti-Chávez, que jogou um papel instrumental no golpe fracassado.
De acordo com o sociólogo Kim Scipes, o escritório do Solidarity Center em Bogotá é gerenciado por Rhett Doumitt, que dirigia a organização na Venezuela durante o golpe.
Enquanto isso, o NED continua a financiar a “sociedade civil”, dando a organizações locais mais de U$ 1,5 milhão em 2012.
Não é surpreendente que o secretário de Estado John Kerry tenha criticado o governo da Venezuela por violência relacionada aos protestos e sugeriu que os Estados Unidos estão considerando impor sanções. Ele também anunciou recentemente a iniciativa de convencer outros líderes da região a se juntar aos Estados Unidos e mediar a crise. Claramente, o objetivo é forçar o governo da Venezuela a negociar com a oposição, que não consegue vencer em eleições justas e livres.
É provável que qualquer processo de mediação liderado pelos Estados Unidos vá resultar num pedido para o presidente Maduro renunciar e na instalação de um governo interino.
É uma estratégia-modelo dos Estados Unidos usada em outros lugares: dar apoio a movimentos de oposição para desestabilizar um país a ponto de justificar a mudança de regime. Dentre as campanhas bem sucedidas de desestabilização de Washington, que derrubaram governos eleitos democraticamente, estão a que tirou do poder o presidente Jean Bertrand Aristide no Haiti em 2004 e a remoção de Viktor Yanukovich na Ucrânia duas semanas atrás.
A figura de oposição que lidera os atuais protestos na Venezuela é Leopoldo López, educado em Harvard, que também foi instrumental na organização dos protestos de rua de abril de 2002, que foram parte do golpe fracassado.
Ele também é o ex-prefeito do município mais rico da Venezuela e integrante de uma das famílias mais ricas do país. López recebeu financiamento do NED apesar de um telegrama diplomática de 2009, da embaixada dos Estados Unidos na Venezuela, também publicado no Wikileaks, tê-lo definido como “uma figura divisiva da oposição” que é “geralmente descrito como arrogante, vingativo e sedento de poder”.
López abandonou a campanha presidencial de 2012 quando ficou claro que ele não teria os votos necessários para derrotar o principal candidato da coalizão. Ele recentemente se entregou às autoridades para enfrentar acusações de instigar violência, enquanto Maduro expulsou três diplomatas dos Estados Unidos que alegadamente se encontraram com manifestantes nos dois meses que precederam as manifestações.
Como mencionado nos documentos acima, a política dos Estados Unidos tem sido a de desestabilizar o governo da Venezuela com o objetivo de trocar o regime.
Washington apoiou um golpe militar, financiou as tentativas eleitorais da oposição e grupos cujo objetivo é desestabilizar o país. Os atuais protestos constituem a culminação de mais de uma década de políticas voltadas para solapar o governo.
Embora muito da estratégia dos Estados Unidos tenha sido implementada sobre a rubrica de “promoção da democracia”, na verdade o objetivo é a derrubada inconstitucional de um governo eleito e a instalação no poder de uma oposição que tem repetidamente fracassado na tentativa de vencer no voto, em eleições justas e livres.
Garry Leech is an independent journalist and author of numerous books including Capitalism: A Structural Genocide (Zed Books, 2012); Beyond Bogota: Diary of a Drug War Journalist in Colombia (Beacon Press, 2009); and Crude Interventions: The United States Oil and the New World Disorder (Zed Books, 2006). He is also a lecturer in the Department of Political Science at Cape Breton University in Canada.
PS do Viomundo1: O dirigente da FTI Consulting para a América Latina é Frank Holder, conhecido da Polícia Federal brasileira como ex-integrante da empresa de espionagem Kroll.
PS do Viomundo2: Assim que assumiu o poder, depois do golpe contra Chávez, o empresário Pedro Carmona Estanga fechou o Parlamento! Ah, esses democratas!
PS do Viomundo3: No Brasil, o lobby do momento é em busca de alguma manifestação do governo brasileiro que enfraqueça Maduro. Está lá, no ponto cinco do documento da embaixada: isolar Chávez (agora Maduro) internacionalmente. Resta saber se os proponentes são inocentes úteis ou lobistas pagos, em dinheiro ou favores.
PS do Viomundo4: A CNN em espanhol trabalha 24 horas por dia na guerra da propaganda. Destaca de forma proeminente as manifestações de artistas populares, como Rubén Blades e Rihanna, em apoio aos manifestantes da Venezuela. Está lá, no documento das ONGs, contar com a ajuda de “personalidades globais”. Se tiverem milhões de seguidores no twitter, então, melhor ainda…
fonte: VIOMUNDO


Mais Médicos supera meta e garante atendimento a mais de 51 milhões de brasileiros

O Mais Médicos encerra seu quarto ciclo de seleção com a participação de mais 5.479 profissionais e previsão de chegar ao mês de abril com mais de 14,9 mil médicos atuando nos municípios do interior e na periferia das grandes cidades. Com isso, o governo federal passará a garantir assistência em atenção básica para mais de 51 milhões de brasileiros, ultrapassando a meta estabelecida para o programa no primeiro trimestre deste ano – de 13 mil médicos atendendo a 44,8 milhões de pessoas.
Entre os 5.479 médicos da quarta etapa estão 1.078 profissionais brasileiros que optaram por migrar do Programa de Valorização da Atenção Básica (Provab) para o Mais Médicos e 4.000 cubanos que, assim como nos outros ciclos, vão ocupar as vagas não preenchidas pelos demais candidatos. Também integram o grupo os 401 candidatos selecionados em primeira chamada pelo edital, sendo 197 com diplomas do Brasil e 204 formados no exterior.
Atualmente, os 9.425 médicos que integram o programa estão distribuídos em 3.241 cidades e 32 distritos indígenas. Parte desse grupo, pouco mais de 2.000, ainda está finalizando o processo de avaliação e deve iniciar o atendimento nos municípios em março.
Novo termo de ajuste
Os 4.000 profissionais cubanos do quarto ciclo chegarão, a partir desta quarta-feira (5), a seis cidades brasileiras – Gravatá (PE), Porto Alegre (RS), Brasília (DF), Guarapari (ES), Fortaleza (CE) e São Paulo (SP), onde vão cursar o módulo de acolhimento e avaliação do programa junto com os demais estrangeiros.
A chegada deste novo grupo e a manutenção dos demais médicos que vieram ao Brasil por meio de cooperação entre o Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) será viabilizada por um novo termo de ajuste deste acordo. O documento prevê investimento de R$ 973,94 milhões nos próximos seis meses, sendo 86% do valor previsto para os gastos diretos com o profissional, como o pagamento da bolsa-formação e da ajuda de custo de instalação. O aumento no valor se deve à presença de 11.400 médicos.
O novo termo, cujo extrato foi publicado no Diário Oficial da União nesta quarta-feira, segue o mesmo padrão do anterior, cujo cálculo de recursos considerou o pagamento de passagens, ajuda de custo e bolsa de formação mensal com base nos mesmos valores estipulados para os demais participantes do programa, sejam eles brasileiros ou estrangeiros. Além disso, o valor repassado à OPAS cobre os gastos com curso de acolhimento e avaliação de três semanas obrigatório a todos os participantes com diplomas do exterior, incluindo hospedagem, alimentação, estrutura física e equipamentos.
Na última semana, o Ministério da Saúde anunciou aumento do valor da bolsa recebido no Brasil pelos médicos cubanos, que passou para U$ 1.245, o equivalente a R$ 3 mil por mês. Este reajuste é resultado de articulação do governo federal brasileiro ao longo dos últimos meses junto à OPAS e ao governo de Cuba. O valor toma como parâmetro a bolsa para os médicos residentes no Brasil, de R$ 2.976 brutos.
O reajuste da bolsa repassado diretamente pelo governo de Cuba para os médicos será realizado sem qualquer custo adicional para o Brasil, mantendo o valor de referência de R$ 10,4 mil mensais por profissional.
As regras gerais adotadas entre o Brasil, a OPAS e o governo de Cuba para a realização do Mais Médicos seguem o mesmo padrão das demais cooperações realizadas por Cuba em 63 países para o provimento de profissionais de saúde.
fonte: blog do planalto

terça-feira, 4 de março de 2014

OS AMERICANOS SÃO CONTRA INTERVENÇÃO MILITAR PARA OS OUTROS, ELES PODEM...

Putin diz que uso da força na Ucrânia será “legítimo”

Passagem a intervenção armada será “um meio extremo”, mas Moscovo garante ter direito “a tomar todas as medidas necessárias” para proteger cidadãos na Ucrânia.

Putin afirmou que uso de força será medida extrema Alexei Nikolskiy/Reuters



Apesar de considerar a possibilidade de uso de força militar “um meio extremo”, Moscovo sente-se “no direito de utilizar todos os meios para defender” os cidadãos ucranianos e russos étnicos. Essa eventualidade será sempre “legítima”, garante Putin.
“Como sabem, o Presidente legítimo pediu à Rússia para utilizar a força militar para proteger os cidadãos ucranianos e russos”, afirmou Putin, numa referência a uma carta de Viktor Ianukovich, em que o Presidente deposto apelava a uma intervenção russa para repor a lei e a ordem na Ucrânia.
Putin não afastou a possibilidade de deslocar as suas forças armadas para outras regiões da Ucrânia, nomeadamente no Sul e no Leste do país. As pessoas “estão receosas por causa das ilegalidades, e se encontrarmos essas ilegalidades nas regiões do Leste, e as pessoas pedirem a nossa assistência, então reservamo-nos a tomar todas as medidas necessárias para proteger esses cidadãos”, afirmou.
O objectivo da presença russa no território, diz Putin, “é dar às pessoas o poder para decidir o seu destino, seja em que região for”. “Não queremos intervir, mas acreditamos que todos os ucranianos devem ter os mesmos direitos para moldar o futuro do seu país.”
Mas, mesmo uma eventual utilização da força, não será, para Putin, o início de uma guerra. “Não vamos para a guerra com as pessoas da Ucrânia”, assegura. “Se tomarmos essa decisão, será para proteger as pessoas da Ucrânia: como pode um exército disparar contra famílias?”, questionou.
Putin quis também deixar um recado aos países que acenaram com sanções, como os EUA e a União Europeia. “No mundo moderno e interdependente, é claro que os danos são causados [pelas sanções], mas os danos serão mútuos”, avisou o Presidente russo. “Os nossos parceiros estão apoiar autoridades ilegítimas. Achamos que as nossas acções são bem fundamentadas e qualquer acção contra a Rússia é contraproducente”, acrescentou.
Os grupos armados que têm patrulhado a Crimeia são apresentados por Putin como “forças de autodefesa”, que não têm qualquer ligação ao Exército russo, apesar de os uniformes apresentarem semelhanças. “O espaço pós-soviético está cheio de uniformes desse género, eram pessoas da Crimeia.”
Putin não hesitou em afirmar que Ianukovich não tem futuro político, apesar de ser o Presidente legítimo. A Rússia acolheu-o apenas por “razões humanitárias”: “Iriam matá-lo lá.”
O Presidente russo revelou ainda que a dívida de gás da Ucrânia à empresa estatal russa Gazprom pode ascender a 2 mil milhões de dólares, caso a factura de Fevereiro não seja paga. “Se eles não receberem o dinheiro a tempo dos parceiros ucranianos, então terão de agir de acordo com o seu próprio programa (…) Não está relacionado com os eventos políticos”, garantiu Putin.
fonte: PUBLICO.PT