Barão da nova mídia, do eBay, ajudou a derrubar o governo da Ucrânia
publicado em 5 de março de 2014 às 7:19
Os Estados Unidos queriam Castelo Branco no poder: e ele assumiu! (Arseniy Yatseniuk, na Ucrânia)
4 de março de 2014.
Oligarcas triunfantes
Ucrânia, Omidyar e a agenda neo-liberal
CHRIS FLOYD, no Counterpunch
1.
A intervenção ocidental na Ucrânia deixou a região, agora, à beira de
uma guerra. A oposição política ao governo do presidente Viktor
Yanukovych – um regime corrupto e bandido, mas como tantos outros
regimes corruptos e bandidos que se vê hoje em dia, eleitos
democraticamente — foi financiado em parte por organizações do governo
norte-americano ou associadas a ele, como a National Endowment for
Democracy (um velho veículo de golpes pró-Washington) e a USAID. Também
recebeu apoio financeiro substancial de oligarquias ocidentais, como do
bilionário Pierre Omidyar, fundador do eBay e financiador exclusivo do
novo meio jornalístico “adversário”, o
First Look, como conta o
Pandodaily.
Yanukovych inflamou protestos massivos no fim do ano passado, quando
recusou um acordo financeiro proposto pela União Europeia e escolheu, no
lugar dele, um pacote de ajuda financeira de US$ 15 bilhões da Rússia. O
acordo da EU deixaria a Ucrânia, então desesperada por dinheiro vivo,
em uma camisa de força financeira, como a Grécia, e na realidade sem
promessa de um caminho para eventualmente ingressar na UE.
Havia outra cláusula na proposta de acordo da UE que raramente foi
divulgada: ela teria proibido a Ucrânia de “aceitar futuras ajudas dos
russos”, como salientou Patrick Smith em um importante artigo publicado
no
Salon.com.
Era um acordo brutal do tipo pegar ou largar que deixaria a Ucrânia
sem margem de manobra, incapaz de usar sua posição única entre o Leste e
o Oeste para sua própria vantagem no futuro, ou incapaz de conduzir sua
política externa e econômica como achasse melhor. Yanukovych preferiu o
acordo russo, que dava à Ucânia dinheiro vivo imediatamente e não
impunha as mesmas restrições draconianas.
Foi uma decisão política. Pode ter sido a decisão política errada; milhões de ucranianos acharam que ele estava errado.
Yanukovych, que já não era popular antes do acordo, provavelmente
seria expulso da presidência pela via democrática nas eleições nacionais
marcadas para 2015. Mas as demonstrações de desagravo em relação a essa
decisão política cresceram e se tornaram um grito pela mudança de
governo.
Enquanto isso, nos bastidores, Washington estava manobrando para
colocar no poder seu candidato predileto, Arseniy Yatseniuk, como ficou
bem claro com o vazamento da conversa gravada entre a subsecretária de
estado Victoria Nuland e o embaixador norte-americano na Ucrânia,
Geoffrey Pyatt.
Vale à pena notar que quando Yanukovych finalmente caiu – depois que a
oposição rejeitou o acordo fechado pela EU para instaurar um governo de
coalização e marcar eleições para dezembro – Aseniy Yatseniuk
efetivamente assumiu o controle do governo ucraniano, como planejado.
De acordo com todos os relatos, Viktor Yanukovych era um personagem
repugnante que geria um governo repugnante, com o apoio de oligarcas
repugnantes que exploram o país para seu próprio benefício e o deixam
empobrecido e caótico.
Nesse aspecto, ele não era muito diferente de seus antecessores, ou
muitos dos que o suplantaram e que também têm apoio dos oligarcas e
conexões duvidosas (veja o adendo abaixo). Mas em muitos casos, a ideia
de apoiar uma derrubada inconstitucional do governo ucraniano, eleito
livremente, com uma revolta baseada exclusivamente nas voláteis
distinções culturais e linguísticas que dividem o país, parece uma
receita óbvia para o caos e a briga.
Era certo também que isso provocaria uma resposta da Rússia. Foi, em outras palavras, uma política monumentalmente estúpida (
como destacou Mike Whitney).
Smith acrescenta:
“A panelinha que dirige a política externa (dos Estados Unidos)
continua totalmente comprometida com a propagação da ordem neoliberal em
escala global e não admite exceções. Essa é a política norte-americana
no século XXI. Ninguém pode alimentar ilusões (como essa coluna confessa
já ter feito) de que a conduta dos Estados Unidos no exterior possa
mudar por conta própria em resposta à leitura inteligente da ordem que
veio à tona depois da guerra fria. Impor a ‘democracia’, ao estilo
norte-americano, era a história dos Estados Unidos desde o começo, com
certeza, e tem sido a missão desde que [presidente Woodrow] Wilson a
definiu e mesmo antes que ele chegasse à Casa Branca. Quando a guerra
fira acabou, nós começamos a década do bullying triunfalista – guerra
econômica travada sob a égide do ‘Consenso de Washington’ – o que era a
mesma coisa”.
A política norte-americana é baseada em – e depende de – uma
ignorância arrogante, furiosa e obstinada a respeito das outras pessoas,
de outras culturas, da história em geral, e até mesmo da história
recente da própria política externa norte-americana.
As relações históricas e culturais da Ucrânia com a Rússia são altamente complexas.
A Rússia tem uma identidade nacional que vem da cultura que se
desenvolveu em torno do que hoje é Kiev; de fato, de várias formas, a
“Rússia” nasceu em Kiev.
Ainda assim, um dos primeiros atos dos revolucionários apoiados pelo
Ocidente foi passar uma lei declarando o ucraniano como única língua
oficial, apesar da maior parte do país falar russo ou Surzhyk, “uma
mescla de ucraniano e russo (muitas vezes com pitadas de húngaro, romeno
e polonês)”, como
Peter Pomerantsev, do LRB, detalhou em excelente artigo sobre a riqueza e a complexidade linguística e cultural da Ucrânia.
Isso não significa dizer que os ucranianos não têm motivos para se
preocupa com um abraço russo. Milhões de ucranianos morreram nos anos 30
por causa da fome causada por políticas desumanas impostas pelo governo
de Moscou (apesar de o governo ser dirigido por um representante da
Georgia, em nome da ideologia transnacional). Complexidade e
volatilidade sempre estiveram presentes. Hoje, como diz Smith, muitos
ucranianos enxergam espaço para relações mais próximas com o ocidente;
os mais sensatos parecem preferir uma “terceira via”, nada de isso ou
aquilo. Muito poucos querem uma ruptura definitiva com a Rússia.
Ainda assim, a todo o momento, o novo governo de Kiev, que tem o
apoio do Ocidente, tem pressionado essas divisões voláteis defendendo
políticas estritamente anti-russas enquanto os governos ocidentais fazem
de conta que isso não terá consequências, nenhuma reverberação em
Moscou.
E mais: as facções neofascistas que desempenharam um papel
preponderante na revolta agora estão reivindicando que a Ucrânia se
torne uma potência nuclear, depois de ter aberto mão das armas nucleares
soviéticas em seu território, em 1994.
De fato, o líder da direita radical Oleh Tyahnybok fez do rearmamento
nuclear sua plataforma presidencial para as eleições de poucos anos
atrás. Agora o partido está dividindo o poder com o governo apoiado pelo
Ocidente; será que em breve veremos uma Ucrânia somada ao ranking das
nações nucleares? Com uma fronteira eriçada com a Rússia – como o
holocausto por um fio entre a Índia e o Paquistão?
Mais uma vez vemos a cegueira estúpida da arrogância, quando o
elitismo neoliberal do “consenso de Washington” continua a cometer seus
erros pelo mundo afora.
2.
Agora nós estamos à beira de uma guerra pela Criméia. Aqui também
existem complexidades históricas que são totalmente ignoradas pela
narrativa da mídia.
A Criméia não era considerada parte da Ucrânia até que foi
transferida por ordem administrativa do governo soviético em 1954,
removendo-a das “repúblicas socialistas” russas e transferindo-a para a
jurisdição das “repúblicas socialistas” ucranianas.
Quando houve o colapso da União Soviética, a Criméia se tornou uma
república autônoma que operava sob a constituição da Ucrânia. Sua
população é composta por 60% de russos, mas ainda assim o idioma dessa
maioria perdeu status oficial por parte do governo em Kiev que tomou o
poder por meios não constitucionais.
Nada disso justifica a mão pesada que Putin está adotando. Mas a
Rússia dos tempos pós-soviéticos, sem ideologia transnacional, se tornou
um estado altamente nacionalista.
Putin é um líder autoritário que agora baseia sua argumentação furada
na “legitimidade” – e na dominação de sua panelinha brutal – da defesa
do nacionalismo russo e de “valores tradicionais”.
É inconcebível que ele não fosse considerar as interferências óbvias
do Ocidente na Ucrânia como um ato de provocação e atitude temerária que
tem como alvo ele e seu regime, e que ele não reagisse à altura.
Então, aqui estamos. Caos, briga, ameaça de guerra – e a pesada
fumaça da ignorância cobrindo tudo isso. Andamos novamente como
sonâmbulos em direção ao desastre.
Deliberadamente promovendo tumulto sem a mais vaga preocupação com as
consequências, ou com o sofrimento que ele causa agora e talvez a
gerações futuras. (Pense no Iraque, por exemplo, ou na propagação da
violência e do caos que já se alastrou por vários países a partir da
intervenção nos assuntos internos da Líbia).
Mas por que estamos aqui? Ganância. Ganância e a sede de dominação.
Não vamos falar em “poder” porque essa palavra tem conotações positivas e pode também incluir um elemento de responsabilidade.
Mas os oligarcas e ideólogos, os militaristas e ministros que fazem
parte desse episódio do Grande Jogo, de métodos duvidosos, não querem
poder no sentido amplo e profundo.
O que eles querem é dominação, ser senhores de todos – fisicamente,
financeiramente, psicologicamente. Entre os que estão no topo dessa
situação, de todos os lados, não existe a menor preocupação com o bem
comum dos demais seres humanos – nem mesmo daqueles com os quais têm
alguma ligação por mero acidente histórico ou geográfico: idioma,
nacionalidade, etnia.
A sede de tomar tudo e dominar supera todo o resto, apesar de toda a devoção que destila da retórica de todos os lados.
E se a guerra for evitada, qual é o provável resultado para a Ucrânia
(além de viver em tensão eterna com um vizinho autoritário, ameaçado e
cheio de ódio ao norte)? Smith nos diz: traição.
“Imediatamente após Yanukovych ser escorraçado de Kiev, a sedução
começou a se transformar em traição. Os norte-americanos e europeus
começaram a bater os pés com relação ao que fariam pela Ucrânia agora
que a Rússia tinha fechado a torneira dos US$ 15 bilhões. Acontece que
agora ninguém quer pagar a conta. Washington e a União Europeia estão
empurrando o Fundo Monetário Internacional para a posição de líder do
socorro do Ocidente. Se o passado serve de guia, os ucranianos vão
conhecer agora a ‘terapia de choque’ que o economista Jeffrey Sachs
tanto defendeu na Rússia, na Polônia e em todos os lugares depois do
colapso da União Soviética. Sachs depois negou (desonestamente) ter
feito este papel – é de se compreender dados os resultados calamitosos,
notadamente na Rússia – mas a receita neoliberal é aplicada sem levar em
conta realidades locais e os ucranianos estão a ponto de tomar sua
dose”.
“É errado, como todo pensamento não histórico é. As ex-sociedades
comunistas, especialmente no contexto Oriental, devem logicamente
avançar primeiro para alguma forma de democracia social e então decidir
se querem levar as coisas mais para a direita. O medo de Washington,
evidente durante a guerra fria, era de que as democracias sociais
provassem que elas funcionam – o que apresentaria uma ameaça ainda
maior, paradoxalmente, do que o modelo soviético. Os ucranianos que são a
favor da inclinação para o ocidente, que idealizaram a União Europeia,
parecem supor que eles vão desenvolver um sistema mais ou menos entre o
dos escandinavos e a Alemanha, como os europeus do leste previram
anteriormente. Eles então vão ficar realmente chocados com o acordo do
FMI. Será amargo, depois das promessas traiçoeiras cuidadosamente
apresentadas”.
Aconteça o que acontecer, parece certo que as oligarquias –
ocidentais, ucranianas, europeias ou russas continuarão exercendo
dominância – porém, algumas das que defenderam com veemência o lado
perdedor podem ser afastadas. Ainda assim, a maior parte dos oligarcas,
em todas as nações, é, em geral, especialista em jogar dos dois lados ou
em trocar de lado quando necessário.
O Murdoch do século 21
É tentador ver esse princípio aplicado ao caso de Pierre Omidyar,
proeminente financiador privado dos esforços americanos de custear e
dirigir a oposição ucraniana ao poder, como reportou Pandodaily.
Omidyar, que criou o eBay e agora é dono do PayPal, se tornou muito
conhecido recentemente – e foi universalmente elogiado – por ter se
comprometido com US$ 250 milhões para o First Look, um grupo editorial
dedicado ao jornalismo antagonista.
Ele montou uma equipe de estrelas para sua empreitada, incluindo
Glenn Greenwald, Matt Taibbi, Jeremy Scahill, Marcy Wheeler e outros de
reputação semelhante. Não seria exagero dizer que ele se tornou um
genuíno herói da esquerda, que tendeu a desconsiderar qualquer crítica
ou questionamento a respeito de sua nova iniciativa, ou de suas
operações mais amplas, como reclamação de perdedores invejosos – ou como
ação disfarçada do Estado que estaria tentando tirar do eixo essa
perigosa ameaça ao governo da elite.
Ainda assim, as amplas operações de Omidyar – incluindo as da Ucrânia
– não casam bem com a imagem de paladino dos antagonistas ou de perigo
para o sistema.
Deixando de lado as circunstâncias problemáticas do ativismo
antagonista se tornar dependente das vontades pessoais de um bilionário,
existe o fato de que a visão filantrópica de Omidyar se baseia em
grande parte na financeirização dos esforços para aliviar a pobreza – de
transformá-los de programas de caridade ou do governo em iniciativas
que visam fazer dinheiro e premiam investidores com bons retornos
enquanto quase sempre deixam os recipientes em situação ainda pior do
que estavam antes.
De acordo com a reportagem da
nsfwcorp.com,
aí se incluem iniciativas de microcrédito na Índia que levaram a
suicídios em massa entre os devedores pobres e programas
“empreendedores” que deram a favelados direito de posse de pequenos
lotes – ainda em situação de penúria, eles os vendem por uma ninharia a
grandes operadores que então eliminam os guetos para erguer projetos
lucrativos enquanto os pobres têm que procurar outra favela.
Nesse projeto, Omidyar se associou a Hernando de Soto, um direitista
seguidor da “doutrina do choque” que foi conselheiro do ditador peruano
Alberto Fujimori; de Soto também é aliado dos irmãos Koch [bilionários
de extrema-direita dos Estados Unidos]. Omidyar também jogou dinheiro em
esforços para lucrar com a privatização da educação pública dos Estados
Unidos e de outros lugares, forçando as crianças de lugares pobres do
mundo a pagar pela educação fundamental – ou ficar sem ela.
Então, Omidyar parece ser parte integrante da “ordem neoliberal” que,
como Patrick Smith mostrou acima, os Estados Unidos estão promovendo
“em escala global, sem admitir exceções”.
Assim, não é surpresa vê-lo tentando fazer esse papel de levar essa
ordem à Ucrânia de acordo com os esforços declarados e as maquinações de
bastidores do governo dos Estados Unidos.
Omidyar é, abertamente, um firme defensor da ordem neoliberal –
privatizar bens públicos para o lucro individual, converter caridade e
ajuda estatal em empreendimentos lucrativos para um grupo seleto de
investidores e trabalhar para eleger ou apoiar governos que comunguem
dessas políticas.
Nenhuma dessas atividades é ilegal. Nenhuma delas necessariamente
impede que ele também financie o jornalismo independente. Mas não posso
achar insensato trazer esses fatos à tona.
Não acho insensato aplicar a este oligarca bilionário a mesma desconfiança que você aplicaria a qualquer outro.
Por exemplo, se um website do First Look publicar uma forte denúncia a
respeito das terríveis maquinações de outros oligarcas ou empresários,
não acho insensato as pessoas procurarem saber se o alvo por acaso é um
rival de Omidyar de alguma forma ou se a remoção ou humilhação dele ou
dela de alguma maneira beneficiaria os negócios e os interesses
políticos de Omidyar.
Se faz o mesmo com o
New York Times e sua agenda
óbvia pró-establishment, ou com os jornais de Rupert Murdoch, e assim
por diante; o contexto mais amplo ajuda o leitor a colocar os artigos em
perspectiva, e dar a eles o peso correspondente.
Isso não significa que os fatos desta ou daquela matéria não sejam
verdadeiros; significa que não devem ser engolidos crus, sem visão
crítica, sem a consciência de que existem outros interesses em jogo.
Isso parece tão básico que quase dá até vergonha apontar. Ainda
assim, quase todo mundo que levantou essas dúvidas a respeito do
investimento de Omidyar em mídia foi logo execrado, às vezes ferozmente,
por aqueles que em outras situações têm desconfiança evidente com
relação ao Grande Dinheiro e suas agendas.
Muitos dos que estão atacando a reportagem do Pandodaily sobre
Omidyar e a Ucrânia dizem que “este é o mundo em que vivemos” – um mundo
dominado pelo Grande Dinheiro – e você tem que fazer o melhor possível
com essas más condições.
E também, as empresas de notícias sempre foram propriedade de ricos e poderosos, o First Look não é diferente.
Exatamente. Então o First Look – propriedade exclusive de um
bilionário neoliberal que, como disse Jeremy Scahill, tem muito
interesse nas atividades diárias de sua organização de mídia – deve ser
objeto do mesmo padrão de escrutínio usado para avaliar qualquer outra
empresa de mídia dos ricos e poderosos. Mas isso não parece estar
acontecendo. Na verdade, é bem o contrário.
Acho que talvez haja um erro categórico aqui. Por causa da reputação
dos que assinaram contrato com Omidyar, se cristalizou a ideia de que
Omidyar está interessado em lançar luz sobre as maquinações secretas do
estado de segurança nacional e suas tiradas imperialistas pelo mundo.
Mas as declarações de Scahill indicam que a “visão” de Omidyar é bem mais limitada. A entrevista de Scahill ao
Daily Beast, citada pelo Pandodaily, é bastante reveladora. Abaixo, um trecho um pouco mais longo do que o reproduzido pelo
Pando:
“O empreendimento terá uma separação menor entre o proprietário e o
jornalista do que existe na mídia tradicional. Omidyar diz que quis
fazer o projeto porque estava interessado em temas ligados à Quarta
Emenda e eles estão contratando equipes de advogados não apenas para
evitar que os funcionários sejam processados, mas também para pressionar
ativamente os tribunais em relação à Primeira Emenda, para “forçar o
confronto com o estado nesses temas”.
“(Omidyar) me parece sempre meio político, mas acho que a estória da
Agência de Segurança Nacional (NSA) e das guerras se expandindo colocou a
política em uma posição bem mais proeminente na existência dele. Esse
não é um projeto paralelo que ele está tocando. Pierre escreve mais no
nosso sistema interno de mensagens do que qualquer outro. E ele não está
micro administrando. Esse cara tem uma visão. E a visão dele é
confrontar o que ele vê como um assalto à privacidade dos
norte-americanos”.
Omidyar tem uma preocupação apaixonada com as interferências do
governo na privacidade, diz Scahill, enquanto nota – meio
abominavelmente – que o projeto terá uma “separação menor entre dono e
jornalista do que na mídia tradicional”.
Você imaginaria que isso seria suficiente para fazer soar o alarme de
um jornalista antagonista de longa data como Scahill, mas aparentemente
não.
Em todo caso, toda a ideologia neoliberal de Omidyar se baseia na
habilidade de indivíduos ricos em operar livremente, sem controle de
governos, enquanto correm o mundo em busca de lucro. (E também, se
acontecer, alguns benefícios sociais; mas se a iniciativa com fins
lucrativos de um acaba levando centenas de pessoas ao suicídio, bem,
c’est la vie, eh?).
Naturalmente, indivíduos ricos também querem viver livres da
espionagem do governo enquanto conduzem seus negócios. Eles cooperam de
bom grado com o Estado de Segurança Nacional quando os benefícios são
mútuos, no caso de Omidyar e seus parceiros do governo na Ucrânia – mas
eles querem que tudo seja feito nos termos deles.
Querem que as informações deles sejam mantidas sob o controle deles.
A deposição de um governo estrangeiro, a invasão de terras
estrangeiras, o assassinato extrajudicial de pessoas pelo mundo, a
militarização da política e da sociedade norte-americanas – isso
realmente não os preocupa.
Na verdade, isso ajuda a expandir os parâmetros de negócios deles e a
expandir sua ideologia neoliberal. Mas a ideia de que o governo talvez
também os esteja espionando – ora, isso é intolerável.
A isso se deve resistir, deve haver “confronto” a respeito desse comportamento.
Eu tenho certeza de que os jornalistas contratados pelos 250 milhões
de dólares do Omidyar produzirão um trabalho de valor, levantarão fatos
úteis.
O
Times também faz isso, e o
Washington Post, propriedade de um oligarca também, assim como de vez em quando os jornais do Murdoch.
Mas não acho que o empreendimento do Omidyar foi criado para desafiar
o status quo ou representar uma “ameaça” ao sistema que os veneradores
deste herói estão procurando.
Por sinal, até mesmo Greenwald pede apenas “reformas” do sistema,
“monitoramento real” do Estado de Segurança Nacional por parte dos
legisladores – os mesmos comprados, vendidos, acovardados e dominados
pelo Grande Dinheiro.
Eu honestamente não penso que o poder constituído se sinta ameaçado
por um empreendimento montado por um dos seus que se limita e pedir
“reformas” por “dentro” – especialmente quando seu único proprietário
continua colaborando com os irmãos Koch, com ideólogos radicais de
direita como Hernando de Soto e até mesmo com o Estado de Segurança
Nacional em suas aventuras subversivas no exterior.
Os objetivos de Omidyar são limitados: proteger a privacidade dos
indivíduos da intromissão do governo. Esse é um objetivo nobre e que
vale à pena.
Mas com base em suas atitudes, ele está perfeitamente satisfeito se
esse indivíduo, com sua privacidade protegida, avançar a penosa agenda
neoliberal no resto do mundo, e em casa, em conluio com o Estado
Nacional de Segurança se necessário.
Se Greenwald, Scahill, Taibbi, Wheeler e os demais estão também de
acordo com esta agenda, isso é algo que vamos descobrir nos próximos
meses.
***
Atualização: Por falar em oligarcas triunfantes, depois que este artigo foi escrito, a seguinte notícia me chegou pelo
New York Times:
“O gabinete do Presidente Oleksandr V. Turchynov anonciou duas
indicações, no domingo, de dois bilionários – Sergei Taruta em Donetsk e
Ihor Kolomoysky em Dnipropetrovsk – e outros estavam sendo considerados
para posições nas regiões do leste do país”.
“A estratégia é o reconhecimento de que os oligarcas representam a
elite industrial e de negócios do país e exercem grande influência sobre
milhares de trabalhadores no leste. Oficiais disseram que a esperança é
de que eles possam dissipar desejos separatistas no leste”.
Como sempre, a situação é de vitória dos oligarcas desde mundo.
Fonte: viomundo