quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

247 – Nesta quarta-feira 5, os principais jornais do País, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo, dedicam suas manchetes à falha de energia ocorrida ontem em várias cidades do País. Com tom pessimista, a mídia retoma as previsões de apagão e dissemina a informação de que o Brasil opera no limite de sua capacidade de energia.
Num passado recente, colunistas da grande imprensa previram um apagão na virada de 2012 para 2013, o que não aconteceu. Depois, mesmo desmentida pelas termelétricas e pelas chuvas, a mídia anteviu, há um ano, que haveria corte de energia também em 2014. A mesma torcida parece agora ter voltado.
Colunistas como Merval Pereira, do Globo, ressaltam até que "os deuses estão do lado do [pré-candidato à presidência] Eduardo Campos", ao comentar que a luz acabou enquanto o socialista criticava o governo (leia aqui). Com a declaração, Merval leva um debate que é técnico para o campo político e sugere que o candidato teve sorte ao poder comprovar seus ataques, apesar do prejuízo à população.
O presidenciável do PSDB, senador Aécio Neves, foi um dos primeiros políticos a responsabilizar a gestão petista pela falha de energia. "Estamos agora colhendo, infelizmente, os frutos da má-gestão do governo federal na área de energia. O governo federal afugentou os investimentos", atacou o tucano.
O governo esclareceu, no entanto, que a interrupção ocorrida nesta terça "não tem a ver com estresse do sistema". A afirmação foi do secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann. O sistema interligado brasileiro de distribuição de energia, segundo ele, "trabalha com tranquilidade, dentro do equilíbrio estrutural normal entre oferta e demanda".
Zimmermann afirmou que não há perigo de falta de energia do ponto de vista estrutural. "O sistema elétrico brasileiro tem capacidade instalada de cerca de 127 mil megawatts (MW) e o recorde da demanda de energia ontem (segunda-feira) foi de cerca de 84 mil MW", disse Zimmermann, descartando a possibilidade de racionamento de energia.
O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, também presente à coletiva de imprensa convocada pelo MME, ressaltou que "riscos dessa natureza existem", como aconteceu no Nordeste no ano passado. No último caso, os representantes do governo esclareceram que "as causas ainda estão sob análise".
O risco é de que a análise sobre o assunto seja novamente contaminada pela política, principalmente em ano de eleição. A manchete do portal da Folha nesta manhã, por exemplo, já deu uma indicação do que virá: "Preocupada com eleição, Dilma cria força-tarefa para o setor elétrico".
fonte: brasil 247

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

ONS diz que alto consumo não provocou falta de energia

  • 04/02/2014 21h30
  • 04/02/2014 22h09
  • Rio de Janeiro
Vladimir Platonow - Repórter da Agência Brasil Edição: Carolina Pimentel
Rio de Janeiro - O diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp, nega que excesso de demanda tenha provocado falta de energia em várias regiões do país (Fernando Frazão/Agência Brasil)
Hermes Chipp diz que causas de falta de energia serão divulgadas na próxima quinat-feiraFernando Frazão/Agência Brasil
A falta de energia que afetou consumidores no Sul, Sudeste e Centro-Oeste na tarde de hoje (4) não foi provocada pelo excesso de demanda, apesar de o calor intenso nas últimas semanas, informou o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp.
“A demanda elevada não tem relação com a ocorrência, porque se estava com os carregamentos das linhas de transmissão todos dentro dos limites. Se esse pico de consumo tivesse, por acaso, ocasionado de se operar com sobrecarga, aí podia afetar. Mas não é o caso”, explicou Chipp.
De acordo com o ONS, um primeiro curto-circuito ocorreu às 14h03 na linha de transmissão de 500 quilovolts (kV) Miracema-Colinas C3, de propriedade da empresa Intesa, no Tocantins. Em seguida, outro curto-circuito atingiu a linha Miracema-Colinas C2, também de 500 kV, da empresa Taesa, controlada pela Cemig. Isso acarretou o desligamento do circuito restante, de propriedade da Eletronorte. Com isso, houve o desligamento da linha de transmissão Serra da Mesa-Rio das Éguas, separando fisicamente os Sistemas Norte e Nordeste do restante do Sistema Interligado Nacional.
Segundo Chipp, a linha de transmissão Miracema-Colinas tem capacidade para até 5,1 mil megawatts e estaria, no momento da interrupção, com carga abaixo disso, “dentro de todos os limites e padrões”.
Chipp também descartou que a falha tenha ocorrido por falta de manutenção no sistema. “Todos os equipamentos estão operando dentro dos padrões para os quais eles foram fabricados”. O diretor-geral do ONS calculou que 6 milhões de pessoas foram afetadas e disse que os cortes de energia foram seletivos, a fim de preservar hospitais e outras unidades e serviços de utilidade pública, incluindo o transporte por trens e metrô.
Ele não soube precisar as causas da interrupção e disse que somente na próxima quinta-feira (6) elas poderão ser divulgadas, após uma reunião técnica sobre o assunto.
fonte:ebc

O “fusível” desarmou, como devia. O resto é especulação e “dança da seca”

4 de fevereiro de 2014 | 22:01 Autor: Fernando Brito
ons
Não se discute questões técnicas com blá-blá-blá político, mas com dados técnicos.
A falta de luz em cerca de 5% dos consumidores das regiões Sul, Sudeste e Centro Oeste não tem nada a ver com a falta de chuva, a não ser no fato que a administração prudente do nível dos reservatórios do Sudeste  recomenda que se transfira mais energia de onde eles estão mais bem abastecidos – a região Norte – para onde a estiagem faz  eles estarem mais baixos e  a demanda de energia está maior.
Os dois gráficos aí  de cima mostram uma coisa e outra.
O nível dos reservatórios não é o ideal, mas está acima do que se registrava no ano passado, mesmo produzindo quantidades recorde de energia.
O defeito em uma das linhas de transmissão pode ter tido qualquer causa, inclusive a de excesso de carga. Quando ela caiu, aí sim é quase certo  que a segunda linha a apresentar problemas tenha sido por excesso de carga, pelo fato de o problema ter surgido no novo horário de pico de carga, o meio da tarde, em razão do calor.
E o sistema, tal como o fusível do chuveiro elétrico, desarmou. Afinal, as proteções são feitas para isso, proteger.
E fazer o que seria um “apagão” ser um “apaguinho”.
O sistema elétrico nacional não opera, é verdade, nas condições ideais. Mas a capacidade de geração cresceu e a de transmissão mais ainda.
É certo que nenhum investimento em expansão de geração e transmissão é o bastante frente ao crescimento da demanda por energia no Brasil.
Em fevereiro de 2012, foi batido um recorde de carga no Brasil e no Sudeste: 74 GW e 44GW, respectivamente.
Ontem, novo recorde: 84,3  GW e quase 51 GW no Sudeste.
Isso nada tem a  ver com a chuva, que anda escassíssima, exceto pelo calor e o consumo. Em janeiro, no Rio, foram dois dias de chuva em janeiro.
Deve-se esperar a razão técnica do “desarme” parcial das linhas, ontem.
Assim como é preciso esperar a evolução das chuvas.
Claro que amanhã, se é que já não soltou hoje, o PSDB soltará uma nota oficial sobre como Dilma é a responsável.
É algo tão idiota quanto culpar Alckmin pelo nível do reservatório da Cantareira.
Mas idiotice é o que mais chove na política brasileira.
Que tem gente, a esta altura, fazendo a “dança da seca”, para ver se chove no seu roçado eleitoral.
fonte>: tijolaço

Haddad: 'Não fui eleito para deixar as coisas como estavam'

Em entrevista à RBA, prefeito de São Paulo diz que está 'peitando os grandes', reitera visão de que cidade está pensando pequeno e afirma que não fará 'banho de loja' para satisfazer a população
por Redação RBA publicado 04/02/2014 13:48, última modificação 04/02/2014 15:16
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Jailton Garcia/RBA
Mesquinharia
São Paulo, de 2000 para cá, perdeu o bonde. O que nós precisamos fazer? Nós precisamos pensar grande
São Paulo – Eleito com a promessa de pensar o longo prazo, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), parece manter, com um ano e um mês de mandato, a ideia de que é preciso planejar a cidade para um futuro distante, mesmo que isso signifique críticas, dentro e fora de seu partido, e desgaste com a sociedade. Em entrevista concedida hoje (4) à RBA e à TVT, ele demonstrou impaciência com questões que considera menores no cotidiano paulistano e sua persistência – obstinação, quase mania? – com aquilo que entende como fundamental.
“Infelizmente, o debate público está muito contaminado pela mesquinharia, pela falta de visão de longo prazo e pela falta de grandeza de horizonte que São Paulo sempre teve”, afirmou, em um tema ao qual retornou várias vezes durante os pouco mais de 50 minutos de conversa no gabinete da prefeitura, no centro da capital.
Para quem espera pequenos ajustes capazes de melhorar brevemente a vida, Haddad responde que não dará um “banho de loja” na cidade simplesmente para agradar aos cidadãos sem promover transformações estruturais. “Eu não fui eleito para deixar as coisas como estavam. Independentemente do desgaste que todo prefeito mudancista passa, eu assumi essa missão”, justifica.
Ao comentar a criação da Controladoria Geral do Município, o prefeito segue a mesma linha de raciocínio: “Nós preferimos o caminho mais difícil”, argumenta, explicando que o órgão cumpre um papel fundamental ao ir atrás da empresa corruptora, sem deixar que o problema termine no afastamento do servidor público envolvido no desvio. “Nós estamos peitando os grandes.”
Na conversa com Rodrigo Gomes, Gisele Brito e João Peres, da RBA, e com Márcia Telles, da TVT, Haddad respondeu ainda sobre a renegociação da dívida com a União, fundamental para liberar novos recursos, sobre a criação de instrumentos de participação democrática direta e sobre a política de comunicação da gestão municipal.
Confira a seguir a primeira parte da entrevista.

O sr. chegou aos 51 anos, São Paulo cumpriu 460. Nesses 13 meses de convivência próxima, a cidade lhe deu mais alegrias ou tristezas?

Tivemos um ano muito atípico na cidade de São Paulo, sobretudo a partir de junho, em que as coisas mudaram muito, o humor da cidade mudou muito. Eu acho que tem uma energia que pode ser canalizada para o bem. Não tenho medo de manifestação nem da organização das pessoas, muito pelo contrário. Participei, na juventude, praticamente de todas as jornadas democráticas que o país viveu e tenho muito orgulho disso, assim como eu acho que a juventude participou e participa pacificamente de manifestações e reivindicações e tem que ter orgulho da cidadania que está exercendo. Isso é bom.
RBA Ano atípico
Eu acho que tem uma energia que pode ser canalizada para o bem. Não tenho medo de manifestação nem da organização das pessoas, muito pelo contrário
Agora, nós temos que canalizar isso para um processo de transformação. Quando eu fui para as ruas eu pedi eleições diretas para presidente. Eu acho que o Brasil melhorou desde que passou a eleger seus governantes. Qual é a pauta que está na rua hoje? Nós precisamos canalizar isso para um projeto. Se São Paulo abraçar um projeto grande, do tamanho dela, e eu acho que isso se está precisando fazer…
Por uma série de circunstâncias históricas, ao contrário do que está acontecendo no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, nós tivemos uma década em que perdemos muitas oportunidades. Basta dizer que o nível de investimento per capita em São Paulo é metade do Rio de Janeiro. Tem alguma coisa errada. Como São Paulo investe, por habitante, metade do que o Rio de Janeiro investe sendo que nós sempre estivemos na dianteira do processo de inovação e transformação urbana? Eu acho que nós precisamos resgatar a grandeza e parar de pensar pequeno.
Por que o sr. acha que São Paulo começou a perder sua grandeza?

Por uma série de questões. A primeira delas é o grau de endividamento que a prefeitura alcançou. Trata-se de, provavelmente, uma das prefeituras mais endividadas do mundo. Não estou brincando. Se nós somarmos a dívida com a União com aquela dívida de precatórios, que é a dívida herdada das administrações anteriores, nós estamos falando aí de quase R$ 80 bilhões. Para um orçamento de R$ 40 bilhões, dá a ordem de grandeza do nosso problema. Qual é a família que pode dever dois anos da sua renda? Imagina um chefe de família que ganha R$ 1.000 por mês e deve R$ 24.000. É isso que São Paulo está devendo, dois anos da sua receita. Não faz sentido.
RBA Interesses
Nós estamos sinalizando para os menos favorecidos que a regra vai valer para todo mundo, pro bem e o pro mal
A forma como a cidade adquiriu essa dívida valeu a pena para a população?
Não, de jeito nenhum. Nós nos endividamos de maneira completamente equivocada. Primeiro, em um patamar absurdo por causa do contrato que foi assinado no ano 2000 com o então governo Fernando Henrique. Governo Pitta aqui e governo Fernando Henrique lá. Um contrato absurdo que fixa uma taxa de juros impagável. Imagine você que a União está tendo lucro às custas do município em função da taxa que foi fixada. Foi totalmente equivocado o nosso endividamento.
E será possível renegociar?

Eu acredito que sim. Há muita confusão sobre isso. Alguns economistas entendem que essa renegociação da União com o estado e com o município vai trazer problemas fiscais para o país. Não é verdade. Na verdade, você está reparando um erro e resgatando um equilíbrio contratual que foi perdido. Ou seja, o contrato foi feito para que os municípios se viabilizassem e não se inviabilizassem, como está acontecendo agora.

Então, alguns economistas, equivocadamente, estão vendo nesse gesto correto do governo federal um risco à rigidez fiscal do país. É errado. Nós não podemos colocar um quarto da população brasileira na situação que se encontra. Além de São Paulo, são 176 municípios na mesma condição, em que reside 25% da população brasileira. Qual o sentido de manter um contrato desequilibrado?

São Paulo, de 2000 para cá, perdeu o bonde. O que nós precisamos fazer? Nós precisamos pensar grande. Disso que me ressinto um pouco. Está havendo no debate público uma certa mesquinhez de propósitos da grandeza de São Paulo. Nós não podemos esquecer o tamanho que a cidade tem. Uma cidade que produz 12% do PIB nacional está perdendo espaço, caiu de 12% para 11,5%. Então, nós temos que nos cuidar para não perder relevância no cenário nacional.

Mas São Paulo é uma cidade insubstituível. Não é como Detroit que você quebra e põe outra cidade no lugar. Nós temos que cuidar da cidade. Infelizmente, o debate público está muito contaminado pela mesquinharia, pela falta de visão de longo prazo e pela falta de grandeza de horizonte que São Paulo sempre teve. Está no nosso DNA pensar grande.

O sr. colocaria a questão do IPTU dentro desse conceito de mesquinharia?

Esse debate também. Todos os prefeitos atualizaram a planta, até porque é uma obrigação legal você atualizar a planta. Vejam que todas as liminares estão sendo cassadas agora sob a presidência do ministro (Ricardo) Lewandowski (do STF), substituindo o Joaquim Barbosa. Todas as liminares foram cassadas e serão. Serão porque a atualização da base de cálculo é quase que um dever da própria Lei de Responsabilidade Fiscal.

Minha mãe morava sozinha em uma casa e mudou-se para um apartamento de três dormitórios. E é isenta do IPTU. Estou falando de uma pessoa de classe média-alta. Recebi o telefonema de uma jornalista amiga de vocês dizendo: 'Olha, o meu apartamento custa mais de um milhão e eu pago R$ 90 por mês'. E tem o outro caso, que são os bairros da periferia onde a valorização não acompanha a inflação. E é dever do prefeito diminuir o IPTU dessas residências que se desvalorizaram ou não se valorizaram tanto quanto a inflação.

Nós estamos falando de uma coisa muito pequena. A cidade nunca discutiu IPTU como está discutindo hoje. Isso tudo era feito com grande naturalidade. Me aponte um prefeito que não atualizou a planta da cidade. Todos atualizaram.

Jailton Garcia/RBA Ano atípico
Eu acho que tem uma energia que pode ser canalizada para o bem. Não tenho medo de manifestação nem da organização das pessoas, muito pelo contrário
Além do Tribunal de Justiça, o Ministério Público tem feito cobranças frequentes à prefeitura? Olha, o prefeito de Nova York foi eleito dizendo o seguinte: 'Vou aumentar os impostos para fazer creche'. Ele foi eleito com essa proposta! Aqui não se trata nem de aumento, porque diminuiu a alíquota. E era para fazer creches, né? Foi preciso desapropriar terreno para fazer creche, porque não tem terreno em São Paulo. Como é que eu vou receber o dinheiro do governo federal para construir creche se eu não tenho onde construir? Então, corremos o risco de perder R$ 300 milhões da União por falta de terreno. Não é razoável você deixar 150 mil crianças fora de creche.
Mas o sr. avalia que houve uma certa judicialização da política em São Paulo?
Isso não sou eu que digo. Tem havido judicialização.
O sr. fez um discurso a favor da redistribuição de renda no dia em que Joaquim Barbosa manteve a liminar contra o aumento do IPTU. Como foi avaliada a decisão?
Eu respeito. Estamos dedicando tempo demais a coisas que deveriam ser naturais na vida de qualquer cidade grande e estamos dedicando tempo de menos ao que é grandioso, ao que é do tamanho da cidade.
Nós estamos discutindo Plano Diretor da cidade. Esse Plano Diretor, acreditem no que eu estou falando, vai marcar a vida da cidade pelos próximos 30 anos. Eu não estou falando de um Plano Diretor qualquer. Depois de Prestes Maia, é o primeiro desenho urbano que se oferece para a cidade. O desenho do Prestes Maia, aquela rótula dos anos 1930, durou 80 anos. Nós estamos colocando outra coisa no lugar. Era isso que nós devíamos estar discutindo, porque é uma coisa grande, é do tamanho da cidade.
Nós devíamos estar discutindo o Arco do Futuro, o Arco do Tietê, os eixos de mobilidade, onde vamos adensar, onde vamos desadensar... Nós estamos com uma proposta revolucionária nas mãos, desadensar os bairros, torná-los mais agradáveis. No eixo de mobilidade de transporte de massa, permitir um adensamento maior, porque as pessoas que vão para o eixo de mobilidade estão mais predispostas a usar transporte público. As que estão menos predispostas vão para o miolo do bairro, ficam em uma situação de menos densidade e, portanto, um local que admite outro tipo de vida. Combinando estilos de vida e dando a todo cidadão uma perspectiva de adequar a sua visão de mundo ao bairro que ele mora. Isso é qualidade de vida.
Nós estamos levando emprego para a zona leste. Só um grupo econômico anunciou 50 mil postos de trabalho na zona leste em função dos incentivos fiscais. Isso significa 50 mil pessoas a menos no metrô e no ônibus vindo para o centro. Essa é a beleza da cidade. Tem pouco espaço hoje para discutir isso, que é a coisa mais apaixonante que alguém pode fazer.
O sr. acredita que houve grande envolvimento da população na discussão do Plano Diretor? Apesar de ter havido muitas audiências públicas, o debate foi pequeno.
Teve. Eu acho que você convoca mil audiências públicas, a gente fez mais de 100, mas são as mesmas 10 mil pessoas que participam. Você fala '10 mil pessoas é muita gente', mas em uma cidade com 10 milhões não é. Um em 1000 que estão participando. Os meios de comunicação têm o papel fundamental de fazer chegar a visão nova da cidade, a visão do futuro da cidade.
Essas coisas vão se encaixar. Essas coisas todas sobre arrecadação, PAC, Minha Casa, Minha Vida, tudo isso se encaixa em um plano global e aí a pessoa começa a ver coerência nas atitudes da prefeitura, que é uma prefeitura de mudança. Eu não fui eleito para deixar as coisas como estavam. Independentemente de desgaste que todo prefeito mudancista passa, eu assumi essa missão. Para mim, não tem problema isso, desde que eu esteja colocando a cidade no rumo que eu quero, no rumo mais promissor a longo prazo, porque no curto prazo qualquer mudança em São Paulo incomoda muito. As pessoas não gostam de sair da rotina em São Paulo, isso é uma característica da nossa cidade, mas que tem que ser enfrentada para mudar.

Jailton Garcia/RBA Longo prazo
Esse Plano Diretor, acreditem no que eu estou falando, vai marcar a vida da cidade pelos próximos 30 anos
Quando se fala de Plano Diretor, o cidadão quer saber do poste que caiu. Isso dificulta um pouco a construção das políticas a longo prazo? Falhou a capacidade de comunicação direta da prefeitura? Acho que a comunicação está truncada. Não está fácil se comunicar. Não adianta despejar rios de dinheiro, que nós não temos, em propagandas nas TVs e nos rádios, porque eu acho que isso não resolveria. Eu acho que nós vamos ter que reconstruir canais de comunicação com a sociedade e tem que ter paciência, porque a ansiedade pode fazer você desperdiçar recursos que são escassos, no caso de São Paulo, e ser ineficaz. Não são conceitos simples os que nós estamos lidando, entende? O imediatismo hoje é muito grande.
Todo governante tem um ano de lua de mel. Eu não tive nem seis meses. Tive três meses, porque em março teve uma greve de professores. Uma greve sem nenhuma base. Surgiu uma greve dos professores do nada, não estava sequer instalada a mesa de negociações do governo, nós não tínhamos nomeado ainda as pessoas para suas funções e tinha uma greve na minha porta em março. Mudou em 2013. Você não tem mais o tempo que você tinha e vai ter que se adequar a essa realidade nova.
Agora, nós podíamos ter adotado uma postura de comodismo, de tocar a cidade sem mudança. E às vezes falam para mim: 'Você não acha que a sociedade está exigente demais?'. Eu falo que eu acho que a sociedade está exigente de menos. Se você desse um banho de loja na cidade, gastasse um dinheirinho para fazer uma maquiagem, eu acho que estaria todo mundo mais confortável do que você querer fazer uma mudança mais efetiva. Então, dependendo de onde você olha, as exigências são baixas, porque se quer pouca mudança, na verdade. A cidade não vai suportar pouca mudança. Ela precisa mudar. Precisa mudar a maneira como a cidade funciona.
O que o sr. espera para este ano eleitoral? Os servidores devem querer reajuste salarial, as manifestações podem retornar.
É difícil prever. Nós estamos tentando estabelecer canais de comunicação para que os propósitos da prefeitura fiquem cada vez mais fortes. Eu não acho que prefeito elege governador ou presidente. O espaço de uma prefeitura em uma eleição nacional é muito pequeno. Porque os temas que vão ser discutidos em uma eleição nacional, infelizmente, não são os temas da metrópole. Espero que essa eleição mude um pouco isso.
Porque as pessoas moram nas cidades e eu entendo que nós deveríamos nacionalizar alguns temas que são tratados como temas dos prefeitos e não são. Dizem respeito a todas as capitais do país, a todas as regiões metropolitanas. Mas, infelizmente, eu acho que ainda não. Talvez essa eleição seja diferente e o tema das metrópoles venha com alguma força.

Mas São Paulo é um caso à parte. As outras capitais não vivem a crise financeira daqui. E, talvez por isso, os temas metropolitanos não tenham a prevalência que deveriam ter em uma eleição nacional.
E você tem de fazer eleição para presidente, para senador, deputados... é difícil ter espaço para os temas municipais em eleições gerais. Esse descasamento não é bom. Sempre que se discute os temas municipais, os temas nacionais não estão sendo discutidos e vice versa. Acho que essa é uma das razões pelas quais as cidades ficam fora do debate nacional.
Por exemplo, o Bilhete Único Mensal. Vai valer na metrópole? Vai haver um bilhete metropolitano? Nós inovamos muito na questão da saúde, com o Hora Certa. Pela primeira vez na história estamos derrubando a fila de espera no SUS. Isso nunca aconteceu em São Paulo. A fila só aumentava. Será que é o modelo? Nós encontramos uma forma de começar a dar respostas. Não é que esteja ideal. Mas caiu 15% a fila para agendamento.
O combate à corrupção em São Paulo. O modelo da Controladoria é exportável? Será que nós teríamos o cartel do Metrô se tivesse uma Controladoria atuando nos moldes da cidade, cruzando dados, buscando informações patrimoniais dos agentes públicos?
Tudo isso são debates que vão estar colocados.

Combate ao crack. Será que São Paulo encontrou um caminho diferente? Para diminuir preconceito, retomar a autoestima, dar um horizonte novo para as pessoas.

Enfim, tem coisas que estão sendo discutidas em São Paulo, em pouco tempo, que não são expostas nos veículos tradicionais. Esses programas populares de TV não discutem temas sérios como estes. Você não consegue audiência fácil discutindo aprovação automática. No horário eleitoral você tem oportunidade de discutir o que não foi falado ao longo do ano pelo meios de comunicação de massa.

Jailton Garcia/RBA Patrulha
O reajuste do IPTU era feito com grande naturalidade. Me aponte um prefeito que não atualizou a planta da cidade
Ou seja, as ações sobre as quais o sr. tem esta boa avaliação são coisas que demandam mais vontade política do que orçamento... É o que eu tenho no momento. (risos)
Na parceria com governador, o sr. acha que ele tem correspondido com o mesmo empenho? Há gente no PT que se irrita com essa convivência?
Nós estamos tentando, como é nosso dever, convergências onde é possível. E tem sido possível. O prefeito e o governador têm de se entender. Sobretudo o prefeito da capital. Agora, as divergências têm momento de ser explicitadas, mas não é o prefeito que tem de fazer isso. São as plataformas que vão disputar uma eleição. E a população vai decidir quem está certo.
Agora, no governo você tem de buscar convergência. Acredito que o Alckmin também seja alvo de críticas dentro do PSDB, em relação à presidenta Dilma Rousseff. Mas ele também está buscando convergências. Porque ele precisa de dinheiro para o Metrô, para os trens metropolitanos. O governo federal está investindo dinheiro aí.
Como é que vai fazer o país andar, se você misturar questões de Estado com questões de governo? Ou pior, com questões partidárias? Tem questões que se sobrepõem a todas as outras.
O sr. acha que o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, misturou isso na questão do IPTU?
Eu não quero mais comentar esse assunto.
O seu primeiro ano de gestão teve uma série de atitudes no campo simbólico. O programa na cracolândia renova uma diferença simbólica em relação ao antecessor e em relação ao que é o paradigma em torno da questão social no Brasil?
Tenho certeza que sim. Essas ações todas, quando você acaba com a aprovação automática, a aprovação automática é querer se livrar do pobre, é uma maneira de se livrar do pobre, passa nove anos pelo ensino fundamental sem importar com o que ele aprendeu. E assim vai, é uma sociedade, marcada por um pensamento escravocrata até hoje.
Quando você não cuida do ônibus, não segrega uma faixa, é uma maneira de se livrar do problema. Ou quando você tem uma atitude assistencial com base na violência. A sociedade brasileira é marcada pela violência contra os menos favorecidos. Então, essas ações vão no sentido contrário, de resgatar o compromisso do poder público com os menos favorecidos. E é em todos os campos de atuação, o combate à corrupção que a gente está fazendo também é uma maneira, porque nós estamos pegando os peixes grandes, nós não estamos pegando só pequenas corrupções. Pegamos as grandes incorporadoras que estão respondendo na justiça, pegamos os grandes corruptos da máfia, que acumularam patrimônio de quase R$ 100 milhões. Nós estamos pegando os grandes, nós estamos peitando os grandes. Então nós estamos sinalizando para os menos favorecidos que a regra vai valer para todo mundo, pro bem e o pro mal, seja na hora de oferecer um direito, garantir um direito, seja na hora de punir uma irresponsabilidade.
Jailton Garcia/RBA Diálogo
Eu acho que nós vamos ter que reconstruir canais de comunicação com a sociedade e tem que ter paciência

O sr. acha que dá para tirar as empresas corruptoras das disputas? Agora é lei federal, que entrou em vigor em janeiro, punir severamente o corruptor, porque também temos que acabar com essa mania de apontar o dedo só para o corrupto. Tem alguém que sempre o contempla, e eu acho que São Paulo deu um exemplo de como combater corrupção para valer.
Nós tínhamos a opção de combater só o corrupto, bastava não ter quebrado sigilo, ter feito um processo administrativo, demitia os servidores e não ia atrás do corruptor. Nós preferimos o caminho mais difícil, mas mais efetivo, de quebrar sigilo e descobrir quem é que fornecia dinheiro para ele. Nós só descobrimos isso porque nós tomamos a decisão de combater o corruptor também. E eu acho que é um exemplo de como se faz, toda a verdade está vindo à tona, gente muito importante está respondendo hoje pelo que fez.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Em Miami, Joaquim Barbosa posa para foto com foragido do Brasil que responde 221 processos




Em  Miami, Joaquim Barbosa todo sorridente ao lado do brasileiro Antonio Mahfuz foragido do Brasil e responde a 221 processos.

Mahfuz era conhecido empresário do setor de venda de eletrodomésticos no interior paulista, teve mais de 120 lojas em três Estados, mas as fechou e foi condenado a prisão pela Justiça Federal por sonegar impostos (leia aqui). Mudou-se no início dos anos 2000 para a Flórida. Virou vizinho de Barbosa

Não vai ter racionamento !
Tolmasquim:
usinas e Verdes

Belo Monte foi um crime ?
Ansioso blogueiro no canteiro de Teles Pires (Foto: Geórgia Pinheiro)



Paulo Henrique Amorim entrevistou o presidente da Empresa Pesquisa Energética, Maurício Tolmasquim.

A EPE é uma empresa pública, ligada ao Ministério de Minas e Energia, responsável pela pesquisa e estratégia das variadas fontes de energia que compõem a matriz brasileira.

A entrevista foi sexta-feira (31), por telefone.

O ansioso blogueiro pediu a Tolmasquim que explicasse por que a usina de Teles Pires terá de operar com a tecnologia chamada “fio d’água” – conta apenas com a vazante natural do rio, sem um tanque de reservatório -,  o que limita sua capacidade de produção.

Clique aqui para ouvir a íntegra da entrevista e leia também a transcrição abaixo:

PHA: Maurício, eu tive o grande prazer de visitar essa semana o canteiro de obras da usina Teles Pires, entre o Mato Grosso e o Pará, entre Paranaíta (MT) e Jacareacanga (PA). Eu vi que a obra está 70% pronta. Ela pode produzir 1.820 MW, foi arrematada pelo menor valor já registrado em um leilão no Brasil, 58 reais por mw/h. Porém, ela só poderá entregar 900 mil MW, uma vez que foi obrigada a produzir em fio d’água. Eu gostaria que você me esclarecesse – e estamos falando também de Belo Monte – http://www.pac.gov.br/obra/9059 – quanto o Brasil será forçado a deixar de produzir por conta do uso dessa tecnologia do fio d’água, que acabou sendo imposta como resultado das pressões nacionais e internacionais ?
Maurício Tolmasquim: Na realidade, a Teles Pires teria que ser mesmo uma usina a fio d’água. As características físicas do local não permitiam fazer um reservatório. Mas, a montante dela (“a montante” refere-se à parte mais alta do rio, mas perto da nascente), justamente na usina de Sinop (MT)- http://www.pac.gov.br/obra/8419 – , acima dela, que foi leiloada esse ano, tem um reservatório. Isso acaba atendendo Teles Pires. Então, Teles Pires é um caso que tinha que ser a fio d’água mesmo, mas não é o caso de Belo Monte.

Belo Monte tem usinas a montante que poderiam, sim, ter reservatórios – que aumentariam muito a geração [de energia] da usina. Mas como há essas outras usinas no rio Xingu, e você teria realmente um impacto nas comunidades indígenas, se resolveu não construir o reservatório. Então, por conta disso, Belo Monte ficou uma usina a fio d’água. O que significa fio d’água? Que ela funciona com a vazão natural do rio, você não está estocando água para os momentos em que a vazão diminui. No período úmido ela vai produzir 11 mil MW, e no período mais seco a produção pode cair até a 1000 MW, justamente porque você não construiu um reservatório, um lago, que possibilitasse que a usina produzisse uma quantidade importante de energia o ano todo. Portanto, no caso de Belo Monte, apesar de a usina ter uma capacidade de 11 mil MW, ela deve ter uma produção média anual de 4,5 mil MW.



PHA: Menos da metade do potencial.
Maurício Tolmasquim: Na realidade, numa usina hidrelétrica você nunca consegue produzir todo o potencial. Mesmo com reservatórios, você depende das chuvas. Mas sem dúvida, ela poderia gerar (com o reservatório) mais do que ela vai gerar.


PHA: Quais outros casos como Belo Monte existem no Brasil? Por exemplo, no rio Madeira, as usinas de Jirau – http://www.pac.gov.br/obra/1605 – e Santo Antonio – http://www.pac.gov.br/obra/1803 – foram prejudicadas por isso?
Maurício Tolmasquim: No rio Madeira, na realidade, a montante do rio, a parte superior, fica na Bolívia. A usina com reservatório teria que ser construída na Bolívia, e ai ,sim, aumentaria a geração de Jirau e Santo Antonio, que são usinas a fio d’água, porque ali no sitio mesmo seria impossível construir reservatório. O reservatório teria de ser, portanto, a montante, o que implicaria em um acordo com a Bolívia.


PHA: Fazer um novo acordo como Itaipu?
Maurício Tolmasquim: Na realidade, Itaipu é uma usina que, no fundo, é a fio d’água. Você não tem muito reservatório ali em Itaipu. Hoje em dia, Paulo, eu diria que conseguir fazer as usinas hidrelétricas, mesmo a fio d’água, já é uma vitória. Porque, apesar de tudo o que está se fazendo para tentar minimizar os impactos, as compensações para as comunidades locais, e compensações ambientais, mesmo assim, hoje é muito difícil conseguir as licenças pra leiloar. É claro que o ideal são usinas com reservatório, mas hoje, mesmo sem reservatório, a gente tem uma certa dificuldade de construir.

E hoje as usinas hidrelétricas são vetores de desenvolvimento regional, e sustentável.  Por exemplo, no caso de Belo Monte, tem toda uma comunidade que vive em casas de palafita, que era inundada em certos períodos do ano. Eles estão ganhando casas de alvenaria; com esgoto; água tratada; além de todos os investimentos em escola, polícia…

PHA: No caso de Teles Pires,  me contaram lá que 15% do custo da obra é empregado em investimentos para beneficiar a população local. Dinheiro para reconstruir escolas, construir casas. É um trabalho que custa 15% do valor da obra.
Maurício Tolmasquim: É verdade, Paulo. Teles Pires é um empreendimento importante para o Brasil, porque gera uma energia barata para o País, é importante para o planeta, porque gera uma energia renovável, e de baixa emissão, mas tem que ser importante também para as comunidades locais. Às vezes o empreendedor reclama dessa compensação, mas eu acho justo se fazer. E você veja, no caso de Teles Pires, mesmo com essas compensações ambientais, ela saiu, como você bem disse, por um preço recorde de tão baixo, 58 reais por mW/h. É a usina hidrelétrica mais barata já construída – hoje se contrata térmicas por mais de 140 reais por mW/h.

Isso mostra que nós podemos atender a todos: atender a necessidade de segurança do Brasil, a necessidade de se ter uma energia renovável e a necessidade da comunidade local. Só para se ter uma ideia, na região de Teles Pires, a compensação financeira por ano é estimada em 18 milhões de reais. Em Paranaíta são 14 milhões e em Jacareacanga são mais 4 milhões por ano.


PHA: Agora, outro ponto que me chamou a atenção lá, e eu conversei com alguns dos engenheiros da Odebrecht e da própria Teles Pires. Eles me falaram dos crescentes desafios que virão, por exemplo, para explorar as imensas possibilidades de geração de energia no Tapajós. É possível imaginar que haverá um novo ciclo no Tapajós, e que ele pode ser inibido por uma espécie de constrangimento ambiental?
Maurício Tolmasquim: A bacia do Tapajós tem realmente um grande potencial.


PHA: De quanto?
Maurício Tolmasquim: Olha, a maior delas, que é a usina de São Luiz – http://www.pac.gov.br/obra/8396 -, que nós pretendemos leiloar no final desse ano, ou no começo do ano que vem, tem 7.400 MW, é uma usina bastante grande. Você tem outros aproveitamentos, como Chacorão, que é uma usina grande lá, mas que tem comunidades indígenas em volta e por isso nós vamos deixar um pouco pra depois.  Chacorão é uma usina que poderia ser grande, mas por conta do impacto ambiental, nós não estamos colocando ali.

A região do Tapajós, ao contrario de Belo Monte – porque Belo Monte é uma região muito antropizada, 60% da área já está antropizada, você tem pecuária e outras atividades – o Tapajós não, é uma área mais virgem, você tem menos pessoas na região. Então, nós estamos querendo fazer um novo tipo de usina na região, usinas do tipo “plataforma”.  Por que plataforma? É inspirado nas plataformas de petróleo, que estão no meio do oceano e os funcionários vão pra lá de helicóptero. A ideia é construir uma hidroelétrica no meio da floresta, evitando assim a antropização.

As estradas construídas para levar os materiais, depois da usina pronta, seriam desfeitas e reflorestadas; os canteiros para funcionários, depois da obra concluída, seriam destruídos e a área reflorestada.  Essas usinas operariam com pouca gente, seriam o mais automatizado possível, justamente para evitar a antropização. Então são dois modelos distintos: o modelo de Belo Monte e Teles Pires, que devem ser um vetor de desenvolvimento regional, e as usinas do Tapajós, que devem ser um vetor de preservação.



PHA: Já existe algum exemplo no Brasil dessa usina plataforma?
Maurício Tolmasquim: Não, não, seria a primeira no Brasil, e acho que no mundo. Mas como nós temos um grande potencial – o Brasil tem o terceiro potencial hidrelétrico do mundo, depois da China e da Rússia – e só um terço desse potencial está sendo explorado. Nós temos que pensar em soluções para a nossa realidade.


PHA: Então, o Brasil só explorou um terço da capacidade, e ainda faltam dois terços?
Maurício Tolmasquim: Faltam dois terços. Agora, 60% dessa capacidade está na região Norte, no bioma amazônico. É claro que no bioma amazônico nós temos uma grande riqueza de biodiversidade, e é claro que temos de preservar. Nós acreditamos que não são dois objetivos incompatíveis. Você pode aproveitar essa fronteira hidrelétrica que está no Norte e pode preservar o meio ambiente. São essas iniciativas criativas que nós procuramos implantar para tentar fazer isso, ou seja, nas áreas que não são antropizadas tornar a hidrelétrica um vetor de preservação, e nas áreas que já estão antropizadas tornar a hidrelétrica num vetor de desenvolvimento regional.

Paulo, um dado muito interessante é o seguinte: vamos supor que nós construíssemos todas as usinas possíveis na Amazônia – o que não é a decisão, o Governo não fará isso, a gente só fará realmente aquelas hidrelétricas em locais que não tenham muito impacto.  Mas se fosse tomada essa decisão (de construir todas as usinas possíveis na Amazônia), em termos de área, isso ocuparia 0,5% do bioma amazônico, se todas as usinas possíveis fossem construídas – mas não serão. Estamos falando, em termos de espaço, em uma área muito menor do que 0,5% do bioma amazônico. Nós sabemos que não pode ser só “pouco”, é preciso ver se esses locais escolhidos são muito sensíveis, e esses cuidados serão tomados.



PHA: Existe alguma preocupação especial quanto ao regime de chuva nesse verão bravo que estamos enfrentando? Vamos ter de usar muito as termelétricas?
Maurício Tolmasquim: Nós estamos passando realmente por um período de afluência hidrológica nos reservatórios muito baixa no Sudeste. Em alguns lugares do Sudeste choveu, como no caso do Espírito Santo, mas na área que choveu, essa água acabou indo para oceano. Os nossos reservatórios estão em Minas Gerais, em Goiás, e num pedaço do Oeste de São Paulo. Esse janeiro, realmente, a afluência nesses rios está cerca de 54% da média de longo prazo, ou seja, está muito baixo. Apesar disso, nós estamos tranquilos. Nós temos um sistema elétrico muito robusto, não só de hidrelétricas, mas de térmicas, que quando necessário são acionadas. No passado, numa situação como essa, todo mundo estaria em pânico. Hoje, não. Apesar da hidrologia ruim, nós temos recursos para passar por esse momento. Ano passado, foi o pior ano no Nordeste, foi a pior hidrologia no Nordeste nos últimos 80 anos. Esse ano passamos por essa situação no Sudeste. Mas nós temos os recursos para passar por ela.


PHA: Com a redundância das térmicas, é isso?
Maurício Tolmasquim: Isso, nosso sistema é hidrotérmico. As térmicas são ligadas e funcionam nesse período, de seca. Nós temos que entender que as térmicas são parte do nosso sistema. Na Europa, eles usam as térmicas para gerar 80% da energia. No Brasil nós temos as hidrelétricas, mas temos térmicas também, para quando falta água. É claro que quando nós temos água nós desligamos as térmicas que, além de ser uma energia mais cara, é mais poluente também.


PHA: Só para concluir Mauricio, se você conversar com o pessoal da Teles Pires, vai ver que eles ficam aborrecidos, porque eles queriam produzir 1820 MW (risos) …
Maurício Tolmasquim: Não, Não… (risos), mas é uma usina ótima ali, dadas as características locais. É claro que o ideal são usinas com reservatórios, mas em Teles Pires não é o caso.


PHA: Você tem ido lá? A obra está belíssima!
Maurício Tolmasquim: Não, eu não tenho ido lá, mas eu tenho acompanhado. Eles planejam entrar antes do prazo. Estão com a obra muito adiantada, e devem entregar antes do prazo do contrato. E a energia produzida lá, 915 MW médios, é suficiente para abastecer um cidade de 5 milhões habitantes. É algo bastante expressivo e a um preço muito interessante, muito barato, e uma energia renovável e barata.


PHA: O que me disse um engenheiro lá – evidentemente, eu não posso identificar o nome – é que o que fizeram com Belo Monte foi um crime! (risos)…
Maurício Tolmasquim: (risos)


PHA: Não, não… você não precisa comentar… (risos)
Maurício Tolmasquim: Isso é um dialogo entre as partes. Os mais arraigados dos ambientalistas acham que crime foi construir Belo Monte, os mais arraigados do outro lado acham que foi um crime não ter feito os reservatórios a montante. Então, nós temos que achar um equilíbrio para atender todas as partes do debate. Eu acho que as hidrelétricas são muito importantes, sou um grande defensor das hidrelétricas, acho que sempre que possível tem que se construir reservatórios, é o melhor e mais barato, porque quando você não tem reservatório você tem que acionar mais vezes as térmicas que são poluentes, e ai você tem o impacto ambiental também. Agora, é claro que tem algumas regiões, com comunidades indígenas etc, outras sensibilidade, que tem de ser olhadas e respeitadas. 
 fonte: pha