LCA: taxa de investimento no País é a maior em 25 anos

Análise é de Bráulio Borges, economista-chefe da
LCA Consultores; "essa alta dos investimentos foi disseminada, não se
concentrando só em caminhões, ônibus e máquinas agrícolas", diz ele;
crescimento maior em 2014 poderá vir com a recuperação da economia
mundial
2 de Janeiro de 2014 às 12:24
247 - A economia brasileira
atingiu, em 2013, a maior taxa de investimentos em 25 anos. Isso pode
ser determinante para um ritmo maior de crescimento nos próximos anos, a
depender também do ritmo de expansão da economia mundial. A análise é
do economista Bráulio Borges, da LCA. Confira, abaixo, sua artigo
publicado por ele na Folha de S. Paulo:
Recuperação da economia global pode ser chave em 2014
BRÁULIO BORGES
No começo de 2013, boa parte dos analistas esperava que a economia
brasileira fechasse o ano corrente com expansão na faixa de 3% a 3,5%,
segundo levantamento feito pelo Latin Focus Consensus Forecasts. Hoje,
com o ano encerrado, parece ser bastante provável que a expansão de
nosso PIB tenha sido de 2,4% ou um pouco menos.
Foi o terceiro ano consecutivo em que o desempenho da economia
brasileira frustrou as expectativas. Embora isso já esteja no
retrovisor, é importante buscar as razões por detrás dessa frustração, a
fim de reduzir os erros de projeção e dar subsídios para orientar e
moldar as ações de política econômica.
Sob a ótica da demanda, boa parte das expectativas indicava que os
investimentos (isto é, a Formação Bruta de Capital Fixo, ou FBCF)
cresceriam em torno de 5%, desempenho apenas suficiente para desfazer a
retração de quase 4% verificada em 2012.
Mas, a despeito de todas as turbulências externas e internas ao longo
do ano, a FBCF deverá fechar o ano com alta próxima a 6,5% --ou quase
8,5% quando se contabilizam como investimentos, e não como exportações
(como é feito pelo IBGE), US$ 6,6 bilhões correspondentes a seis
plataformas da Petrobras que foram exportadas apenas contabilmente neste
ano.
Essa alta dos investimentos foi disseminada, não se concentrando só
em caminhões, ônibus e máquinas agrícolas. Nesse quadro, a taxa de
investimento brasileira --isto é, a razão entre a FBCF e o PIB-- deve
ter atingido em 2013 o nível mais elevado em quase 25 anos (veja
gráfico).
Essa razão está a preços constantes, de modo a isolar a evolução das
quantidades (algo necessário diante da constatação de que a variação dos
preços dos bens de investimento quase sempre é inferior à variação
média dos preços dos bens e serviços da economia como um todo).
A eventual alteração do ano base mudaria os valores no gráfico, mas
não o formato da curva --ou seja, não se alteraria o diagnóstico de que
atingimos o maior patamar em quase 25 anos.
Por outro lado, houve uma frustração relevante com o desempenho
daquele componente que responde por pouco mais de 60% de nosso PIB pelo
lado da demanda, o consumo das famílias.
Esperava-se, no início de 2013, que sua expansão chegasse a 4%, mas
sua alta efetiva deverá ficar algo abaixo dos 2,5% --o menor ritmo desde
2003 (ano em que recuou 0,8%), e bem abaixo da média de 2004-2008
(+5,1% a.a.) e 2009-2012 (+4,6% a.a.).
Além da forte alta do preço relativo dos alimentos na primeira metade
de 2013, que afetou o consumo de bens não duráveis, nota-se uma
gradativa perda de fôlego do consumo nos últimos três anos, refletindo,
provavelmente, um maior nível de endividamento das famílias (sobretudo o
comprometimento mensal de renda com prestações) e uma penetração cada
vez maior de bens duráveis.
Ademais, as famílias podem estar direcionando cada vez mais recursos a
investimentos em ativos fixos (FBCF), por meio da construção e
aquisição de imóveis.
Também houve frustração significativa com relação ao desempenho das
exportações, responsáveis por pouco mais de 13% de nosso PIB.
Esperava-se uma alta de pouco mais de 7% das exportações de bens (em
dólares), mas elas deverão ter queda de quase 1% (variação que iria a
-3,5% com a exclusão das operações contábeis de vendas de plataformas).
Esse ponto ressalta a importância do desempenho da economia mundial e
do comércio internacional. E em 2013 o mundo viveu o terceiro ano
consecutivo de frustração: boa parte dos analistas esperava expansão
global próxima a 4%, mas a alta deverá ficar em 3% --a mais baixa desde
2009.
A perda relevante de fôlego da economia global de 2011 em diante
mostra que essa retomada se deu em formato de "W", em termos de taxas de
variação (e não de nível do PIB mundial).
FONTES DE FRUSTAÇÃO
O principal corolário da análise feita nos parágrafos anteriores é o
de que as principais fontes de frustração com o desempenho econômico
recente do país estão associadas em grande medida a fatores ligados à
demanda --demanda externa fraca e demanda de consumo interno com fôlego
cada vez menor-- e não a restrições de oferta.
O estoque de capital da economia brasileira cresce hoje cerca de 4%
a.a., o dobro do observado antes da crise, refletindo a taxa de
investimento mais alta; a oferta de mão de obra, embora tenha reduzido
seu ímpeto, ainda cresce a quase 1,5% a.a; e a produtividade total da
economia em prazos mais curtos é, em boa medida, pró-cíclica (o que
explica sua estagnação recente).
Para o PIB voltar a crescer em linha com seu potencial de médio
prazo, estimado em 3,5% a.a. (segundo cálculos da LCA, taxa que coincide
com a estimada pelo FMI), será preciso um rebalanceamento das fontes de
demanda.
O investimento precisará avançar ainda mais --pois ainda temos
deficiências, sobretudo em infraestrutura econômica e social-- e a
demanda externa deverá voltar a contribuir positivamente para o nosso
crescimento.
Enquanto o primeiro desses fatores depende principalmente de ações da
política econômica brasileira --como o programa de concessões (que
finalmente começou a sair do papel) e o estímulo às PPPs (que começaram a
deslanchar)--, o segundo dependerá primordialmente de uma melhora da
economia global, algo que parece ser bastante provável a partir deste
ano --o que completaria, assim, a última perna do "W" e daria início,
torçamos, a um novo ciclo de expansão sustentada do PIB mundial.