No dia 13 de maio de 1997, o
deputado Ronivon Santiago confessou ter vendido seu voto para a
releeição de FHC por R$ 200 mil; oito anos depois, Roberto Jefferson
afirmou que parlamentares vendiam votos ao PT por R$ 30 mil/mês, algo
que jamais foi provado, e o resultado é o que se viu ontem no STF; todos
são iguais perante a lei?
10 de Outubro de 2012 às 06:53
247 – Maio de 1997. Fernando
Henrique Cardoso, no terceiro ano do seu primeiro mandato, aprova a
emenda da reeleição, esticando o poder presidencial no Brasil de quatro
para oito anos – o antecedente histórico, no Congresso, havia sido a
compra dos cinco anos para José Sarney, onde congressistas foram
presenteados com farta distribuição de concessões de rádio.
Na Folha de S. Paulo, um parlamentar, o deputado
Ronivon Santiago (PFL-AC) confessa ter recebido R$ 200 mil para votar a
favor da reeleição – uma reforma constitucional articulada por Sergio
Motta, que era o braço direito e operador principal de FHC. Autor da
reportagem, Fernando Rodrigues vence o Prêmio Esso de Jornalismo.
Maio de 2005. Acossado por uma série de denúncias,
Roberto Jefferson concede uma entrevista à jornalista Renata Lo Prete e
diz que deputados vendiam seus votos ao PT em troca de uma mesada de R$
30 mil/mês, o “mensalão”. Anos depois, o delator admite que a palava
mensalão era apenas uma figura retórica e jamais foram encontrados
saques ou depósitos nos valores denunciados por Jefferson. Os recursos
sacados eram correspondentes aos valores dos acordos eleitorais feitos
pelo PT e dirigentes de vários partidos – entre os quais, o próprio PTB,
de Roberto Jefferson – para pagar campanhas passadas e organizar
campanhas futuras.
A única semelhança entre os dois casos é que, assim
como Fernando Rodrigues, Renata Lo Prete também venceu o Prêmio Esso de
Jornalismo. Em 1997, o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro,
era apelidado de “engavetador-geral da República” e ele, naturalmente,
não encontrou indícios para abrir uma investigação. Em entrevistas, FHC
chegou a dizer que, se alguém tentou comprar votos, não foi ele – a
emenda da reeleição poderia vir a beneficiar também prefeitos e
governadores.
Hoje, FHC é quem organiza o discurso da oposição. Numa palestra no
Itaú Unibanco, disse que a condenação dos réus da Ação Penal 470 é a
prova de que as instituições estão funcionando no Brasil. Talvez tenha
sido a confissão de que, nos seus oito anos de governo, em que Brindeiro
foi reconduzido três vezes para a Procuradoria-Geral da República, elas
não tenham funcionado a contento.
FONTE: BRASIL 247
Recordar é IMPORTANTE. STF q condena sem provas políticos do PT, livrou
Daniel Dantas, Naji Nahas, Celso Pitta, assassino Dorothy Stang, o mensalao do PSDB etc
O teatro onde se encena a reinvenção da direita
Em artigo exclusivo para o 247, o jornalista Breno
Altman argumenta que os ministros do Supremo Tribunal Federal ignoraram
a prova dos autos e dobraram-se à ditadura midiática; enquantos alguns
ministros transbordavam de revanchismo, outros se acovardavam; ele
lembra que, na compra de votos para a reeleição de FHC, havia um
deputado, réu confesso, que admitia ter recebido R$ 200 mil, mas o caso
jamais foi julgado
10 de Outubro de 2012 às 05:38
247 – A Ação Penal 470 foi um julgamento
político e de exceção? O jornalista Breno Altman, diretor do site Opera
Mundi e da revista Samuel, argumenta que sim. Em artigo exclusivo para o
247, ele argumenta que o Supremo Tribunal Federal se prestou a ser o
teatro onde se encena a reinvenção da direita no Brasil. Leia:
O STF escreve página de vergonha e arbítrio
Breno Altman
Poucas vezes, no registro das decisões judiciais, assistiu-se a cenas
tão nefastas como as do julgamento da ação penal 470, o chamado
“mensalão”. A maioria dos ministros da corte suprema, ao contrário do
que se passou em outros momentos de nossa história, dessa vez embarcou
na violação constitucional sem estar sob a mira das armas. Simplesmente
dobrou-se à ditadura da mídia.
A bem da verdade, alguns dos magistrados foram coerentes com sua
trajetória. Atiraram-se avidamente à chance de criminalizar dirigentes
de esquerda e prestar bons serviços aos setores que representam.
O voto de Gilmar Mendes, por exemplo, transbordava de revanchismo
contra o Partido dos Trabalhadores. O ministro Marco Aurélio de Mello, o
mesmo que já havia dito, em entrevista, que considerava o golpe de 1964
como um “mal necessário”, seguiu pelo mesmo caminho. Mandaram às favas a
análise concreta das provas e testemunhos. Apegaram-se às declarações
de Roberto Jefferson para fabricar discurso de rancor ideológico, ainda
que disfarçado por filigranas jurídicas.
Outros juizes, porém, simplesmente abaixaram a cabeça, acovardados.
Balbuciavam convicções sem fatos ou argumentos dignos. A ministra Carmen
Lúcia não listou uma única evidência firme contra José Dirceu ou
Genoíno, contentando-se com ilações que invertem o ônus da prova. Foi
pelo mesmo caminho de Rosa Weber, sempre pontificando sobre a
“elasticidade das provas” em julgamentos desse naipe.
O papel nobre e honroso de resistência à chacina judicial coube ao
ministro Lewandovski, o único a se ater com rigor aos autos, esmiuçando
tanto os elementos acusatórios quanto as contraposições da defesa. Teve a
companhia claudicante de Dias Toffoli, sempre apresentado pela velha
midia como “ex-advogado do PT”, sem que o mesmo tratamento fosse
conferido a Mendes, notório aúlico tucano.
Assistimos a um julgamento político e de exceção. Um aleijão que fere
os princípios constitucionais e contamina as instituições democráticas.
O processo está sendo presidido por teorias que possam levar ao
objetivo pré-concebido, em marcha batida na qual são atropeladas
seculares garantias civis.
A existência da compra de votos dos parlamentares é reconhecida sem
que haja qualquer prova factual ou testemunhal. A transferência de
recursos financeiros entre partidos passa automaticamente a ser
considerada corrupção passiva, mesmo que não haja ato de ofício ou
compromisso ilícito, renegando a jurisprudência da corte e abrindo as
portas para toda sorte de subjetivismo.
Quadros de partido e governo são condenados porque a função que
exercem traz em seu bojo a responsabilidade penal por supostos atos de
seus subordinados ou até por aqueles sobre os quais teriam ascendência
não-funcional. Em nome dessa doutrina, denominada “domínio do fato”, a
presunção de inocência é fuzilada. Cabe ao réu comprovar que não teria
como desconhecer o fato eventualmente delituoso.
Essa coleção de barbaridades e ofensas à Constituição ontem levou à
condenação, por corrupção ativa, de José Dirceu, José Genoíno e Delúbio
Soares. Dos três, apenas o ex-tesoureiro petista esteva vinculado a
situações materiais, mas sem que houvesse qualquer elemento
comprobatório de ação corruptora. Arrecadou e transferiu irregularmente
fundos para os partidos, e desse procedimento é réu confesso, mas não
houve registro fático que ele algo tivesse comprado que tivesse sido
posto à venda pelos parlamentares denunciados.
Quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso conseguiu a emenda
da reeleição, o deputado Ronivon Santiago, então no PFL do Acre,
confessou ter recebido 200 mil reais para dar seu voto a favor dessa
medida. Aqui temos valor, fato e prova mediante confissão – aliás, de um
crime que o STF jamais se dispos a julgar. Nada disso, no entanto,
apareceu na ação penal 470. Apenas ilações e conjecturas a partir de
mecanismos anormais de financiamento partidário ou eleitoral.
Mas o caso de Dirceu e Genoíno é ainda pior. Não aparecem na cena de
qualquer crime, delito ou contravenção. A suposta prova contra o
ex-guerrilheiro do Araguaia é um contrato de empréstimo contabilizado e
quitado, cujas verbas não constam das transações interpartidárias, como
bem demonstrou o ministro Lewandovski. Foi condenado porque a ele se
aplicou a lógica de exceção: se era presidente do PT, não tinha como ser
inocente das denúncias formuladas.
A condenação do ex-chefe da Casa Civil, por sua vez, apresenta-se
como a maior das brutalidades legais cometidas. Salvo acusações do
condenado Roberto Jefferson, não há contra si qualquer testemunho ou
evidência. Ao contrário: dezenas de depoimentos juramentados corroboram
sua inocência, formando verdadeira contra-prova. Mas a maioria dos
ministros sequer se deu ao trabalho de citá-los ou analisá-los.
Ambos, Dirceu e Genoíno, tiveram seus direitos degolados para que os
interesses mobilizadores do processo se consumassem. Há sete anos as
forças conservadoras e seu partido midiático fizeram do chamado
“mensalão” o centro da estratégia para enfrentar a liderança crescente
do PT e do presidente Lula, de vitalidade reconfirmada em seguidas
eleições, incluindo a do último domingo. Condenar os dois dirigentes era
marco imprescindível dessa escalada.
O STF, acossado pela midia corporativa, além de aviltado pelo
reacionarismo e a covardia, prestou-se a um triste papel, escrevendo
página de vergonha e arbítrio em sua história. De instituição
responsável pela salvaguarda constitucional, abriu-se para ser o teatro
onde se encena a reinvenção da direita. Quem viver, verá. Breno Altman é diretor editorial do sítio Opera Mundi e da revista Samuel.
fonte: BRASIL 247
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Receita anticrise dá certo e produção industrial avança
IBGE mostra que indústria volta a crescer em todo o
Brasil; de 14 regiões, nove registraram alta; na contramão da
sinistrose do FMI, País já dispara em 2012 no ritmo dos 4% de aumento do
PIB previstos para 2013; gol da dupla Dilma-Mantega, que há mais de um
ano investiu em medidas anticíclicas para ultrapassar baixo astral
global
9 de Outubro de 2012 às 10:41
247 – As nuvens negras sopradas pelo FMI estão chegando
dissipadas – e atrasadas - ao Brasil. Apesar de o Fundo estar prevendo o
risco "alarmante" de uma forte recessão mundial, com projeção sinistra
para a economia brasileira, que seria a segunda do globo a sofrer o
maior impacto este ano, a verdade de todos os indicadores é a de que o
País já começou a ultrapassar a crise. E pelo setor mais representativo
da força de qualquer economia: a indústria. Dados do IBGE divulgados
nesta terça-feira 9 apontam para uma retomada de alta na produção
industrial em nove entre d14 regiões pesquisadas. No Estado campeão da
aceleração industrial, Goiás, a atividade fabril avançou 10,3% em
setembro sobre agosto. Uma verdadeira disparada.
A reaceleração da indústria, que se verifica no momento seguinte ao
da manutenção de forte atividade no setor terciário, de comércio, é um
mais um gol da dupla de área Dilma Rousseff-Guido Mantega. Atuando em
sintonia, a presidente da República deu a ordem, ainda em meados do ano
passado, para o ministro da Fazenda e sua equipe dispararem uma série de
medidas de incentivo à indústria, ao consumo interno e às exportações.
Benefícios fiscais foram espalhados por diferentes setores, assim como
foram feitas calibragens na política de incentivo à contratação de mão
de obra. Com isso, todos os indicadores apontaram para um crescimento de
até 4% no PIB para 2013, mas os dados apurados no terceiro trimestre
deste ano, e confirmados agora, com maior acento, mostram que o País já
cresce, neste último trimestre do ano, na toada prevista para o próximo
período. A sinistrose do FMI ficou para trás.
Abaixo, notícia do portal G1 a respeito da retomada da produção industrial:
A produção da indústria aumentou em 9 dos 14 locais pesquisados pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de julho para
agosto, segundo levantamento divulgado nesta terça-feira (9). O maior
destaque neste mês ficou com Goiás, cuja atividade fabril avançou 10,3%,
após recuar 13,3% no mês anterior.
Considerando todos os locais, a produção da indústria cresceu 1,5%.
As regiões que tiveram aumento acima dessa média foram Amazonas (7,6%),
após cair 5,5% no mês anterior, Rio Grande do Sul (4,8%), Minas Gerais
(3,3%), Paraná (3,0%) e São Paulo (2,7%). Ficaram abaixo da média, mas
ainda com taxa positiva, Rio de Janeiro (0,6%), Santa Catarina (0,5%) e
Bahia (0,1%).
Na contramão, registraram recuo no índice de produção Espírito Santo
(-2,4%), Ceará (-1,5%), Pará (-0,7%) e Pernambuco (-0,7%). A taxa do
Nordeste ficou inalterada.
Comparação com 2011 Em relação a agosto de 2011, cuja média média
nacional ficara em -2,0%, a produção industrial caiu em nove dos 14
locais, com destaque para Paraná (-10,8%) e Espírito Santo (-7,5%),
"pressionados em grande parte pelo comportamento negativo na produção de
livros e de caminhões, no primeiro local, e dos setores de metalurgia
básica e extrativo, no segundo".
Também houve quedas na atividade fabril do Pará (-5,7%), do Rio de
Janeiro (-5,6%), de São Paulo (-4,6%), do Amazonas (-4,6%), do Ceará
(-2,2%), de Santa Catarina (-2,2%) e do Rio Grande do Sul (-1,5%).
Já Minas Gerais (4,6%), Goiás (3,7%), Bahia (3,4%), região Nordeste (1,7%) e Pernambuco (1,5%) tiveram resultados positivos.
De janeiro a agosto No ano, de janeiro a agosto, a queda na
produção foi registrada em 9 locais, com destaque para Amazonas (-7,2%),
Rio de Janeiro (-6,5%), Espírito Santo (-6,2%) e São Paulo (-5,6%), com
recuos acima da média nacional (-3,4%). Goiás (5,3%), Pernambuco
(3,8%), Bahia (3,1%), região Nordeste (2,2%) e Paraná (0,2%) tiveram
resultados positivos.
Em 1 ano No índice acumulado em 12 meses, 8 dos 14 locais tiveram
queda na produção, com destaque para as perdas do Rio de Janeiro
(-4,9%), São Paulo (-4,8%), Santa Catarina (-4,2%), Ceará (-3,6%) e
Espírito Santo (-3,5%). Tiveram aumento na atividade fabril, por outro
lado, Goiás (7,0%), Paraná (3,9%) e Pernambuco (3,8%).
Abaixo, notícia do Portal Terra sobre a avaliação positiva da
Confederação Nacional da Indústria quanto a retomada da produção
industrial;
Mesmo com a utilização da capacidade abaixo da média histórica e
recuo nos empregos, a indústria encerrou o mês de agosto com forte
crescimento no faturamento, de acordo com os dados da Confederação
Nacional da Indústria (CNI).
Na série com ajuste sazonal, o faturamento real subiu 4,8% em agosto
sobre julho, maior alta mensal desde fevereiro de 2011, e atingiu o
maior patamar da série histórica iniciada em 2005. Em índice, o
faturamento está em 130,1, crescimento de 30% desde 2006 e alta de 4,83%
sobre dezembro de 2012. Sobre agosto do ano passado a alta é de 7%.
Já a Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) encerrou agosto em
80,9 pontos, em estabilidade sobre julho, que teve sua leitura revisada
de 81,6 pontos, para 80,9 pontos, também na série com ajuste sazonal. A
média histórica, desde 2005, é de 81,52%. O Nuci apresenta tendência de
queda desde fevereiro de 2011, quando marcava 83,3 pontos.
O emprego, também dessazonalizado, mostrou retração de 0,3% em agosto
na comparação com julho, e caiu 1% sobre agosto de 2011. A massa
salarial real também caiu no confronto mensal, cedendo 2,6%, mas sobre
agosto do ano passado, apresentou crescimento de 4,6%.
Para a CNI, os dados corroboram a expectativa de recuperação que a
instituição tinha e tem para a indústria nos próximos meses. "Com isso
fica caracterizada uma melhora da atividade, sempre lembrando que o
quadro geral que domina a economia mundial não mudou. O que mudou foram
as variáveis domésticas e alguns estímulos", disse o gerente-executivo
de Política Econômica da CNI, Flávio Castelo Branco, ressalvando que os
desafios de manter a produtividade permanecem.
De acordo com Castelo Branco, essa postura positiva da CNI decorre da
mudança de ambiente macroeconômico doméstico, como a alteração da
relação câmbio/ juros, e também capta alguma reação às medidas de
estímulo que foram implementadas pelo governo nos últimos meses, em
especial aquelas voltadas aos bens duráveis.
Para o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima
Gonçalves, quando os indicadores apontam um para cada lado, os números
mais robustos são mesmo o faturamento e a renda, pois não abrem muito
espaço para discussões sobre metodologia de cálculo.
Mas mesmo com esses dois fatores mostrando variação positiva no
comparativo anual, Gonçalves ainda acha que é cedo para afirmar que o
setor industrial entrou em um período de recuperação.
"Estamos num período angustiante. Não se sabe se essa virada é uma recuperação firme ou alguma acomodação mais leve", disse.
Gonçalves reconhece, no entanto, que faz parte da "minoria", já que a
"maioria" dos analistas acredita que o Brasil crescerá 1% por trimestre
daqui para frente.
De acordo com o economista, além da falta de consistência dos dados
econômicos, outro fator que o deixa reticente é a própria avaliação do
Banco Central (BC), que tem previsão de crescimento em 2013 para abaixo
dos 4%. No Relatório de Inflação de setembro, o BC estima crescimento de
3,3% do PIB nos quatro trimestres até junho de 2013.
fonte: brasil 247
André Caramante, um dos mais respeitados
jornalistas brasileiros na área da segurança pública, foi obrigado a
mudar de país e esconder-se. Em entrevista, ele conta o que a situação
de exceção vivida por ele e por sua família revela sobre a intrincada
relação entre poder e violência
ELIANE BRUM
Em 14 de julho, André Caramante, repórter da Folha de S.Paulo, assinou uma matéria
com o seguinte título: “Ex-chefe da Rota vira político e prega a
violência no Facebook”. No texto, de apenas quatro parágrafos, o
jornalista denunciava que o coronel reformado da Polícia Militar Paulo
Adriano Lopes Lucinda Telhada, candidato a vereador em São Paulo pelo
PSDB nas eleições do último domingo, usava sua página no Facebook para
“veicular relatos de supostos confrontos com civis”, sempre chamando-os
de “vagabundos”. Em reação à matéria, Telhada conclamou seus seguidores
no Facebook a enviar mensagens ao jornal contra o repórter, a quem se
referia como “notório defensor de bandidos”. A partir daquele momento,
redes sociais, blogs e o site da Folha foram infestados por comentários
contra Caramante, desde chamá-lo de “péssimo repórter” até defender a
sua execução, com frases como “bala nele”. Caramante seguiu trabalhando.
No início de setembro, o tom subiu: as ameaças de morte ultrapassaram o
território da internet e foram estendidas também à sua família.
O que aconteceu com o repórter e com o coronel é revelador – e nos
obriga a refletir. Hoje, um dos mais respeitados jornalistas do país na
área de segurança pública, funcionário de um dos maiores e mais
influentes jornais do Brasil, no estado mais rico da nação, está
escondido em outro país com sua família desde 12 de setembro para não
morrer. Hoje, Coronel Telhada, que comandou a Rota (Rondas Ostensivas
Tobias de Aguiar) até novembro de 2011, comemora a sua vitória nas
eleições, ao tornar-se o quinto vereador mais votado, com 89.053 votos e
o slogan “Uma nova Rota na política de São Paulo”.
O que isso significa?
Os 13 anos em que André Caramante cobre a área de segurança pública são
marcados pela denúncia séria, resultado de apuração rigorosa, dos
abusos cometidos por parte da polícia no estado de São Paulo. A
relevância do seu trabalho foi reconhecida duas vezes pelo Prêmio Folha
de Jornalismo. Caramante já denunciou sete grupos de extermínio formados
por policiais militares e civis, assim como por ex-policiais. Mantém
sua própria planilha na qual registra os mortos pela polícia. E faz a
denúncia sistemática da figura amplamente difundida da “resistência à
prisão” como justificativa para execução, em geral dos suspeitos mais
pobres. Por sua competência, Caramante ganhou o respeito da sociedade
interessada em uma polícia eficiente, com atuação pautada pelo
cumprimento da lei – e o ódio de uma minoria truculenta, os maus
policiais, tanto militares quanto civis, e daqueles cujos interesses e
projeto de poder estão ligados a eles.
Antes de ser jornalista, Caramante quis ser jogador de futebol. Morador
da periferia de São Paulo, comprou a primeira chuteira vendendo
papelão. Era “um meia-direita dedicado”, na sua própria avaliação, e
usou a chuteira com brio nas peladas de várzea e nas peneiras na
Portuguesa, no Novorizontino e no Palmeiras, clubes nos quais chegou a
treinar nas categorias de base. A necessidade de ajudar com as despesas
da casa o despachou para a arquibancada. Em especial a da Vila Belmiro,
por um amor incondicional pelo Santos herdado do pai.
Aos 11 anos, Caramante começou a trabalhar como camelô, vendendo
chocolates e sacolas no Brás, em São Paulo. Mais tarde, aos 17, o
estudante de escola pública pagou a faculdade de jornalismo da Uniban
com o salário de office-boy e com os vales-transporte que economizava
fazendo o serviço a pé. “Não sabia se a faculdade era boa ou ruim, não
entendia dessas coisas, apenas sabia o que queria fazer”, conta. “O
livro Rota 66, de Caco Barcellos, tinha me mostrado o que era jornalismo.”
Em seu livro Rota 66 – a história da polícia que mata (Record),
Caco Barcellos, um dos grandes nomes do jornalismo brasileiro, hoje na
TV Globo, investigou o trabalho da Rota entre as décadas de 1970 e 1990.
E provou que ela atuava como um aparelho estatal de extermínio,
responsável pela execução de milhares de pessoas. A reação às denúncias
obrigou o repórter a passar um período fora do Brasil, devido a ameaças
de morte. Duas décadas depois do lançamento do livro que o inspirou,
Caramante vive uma situação semelhante.
A notícia de que ele estava vivendo escondido, com a família, vazou na semana passada, em matéria da Revista Imprensa.
Até então, Caramante pretendia manter o fato em sigilo. A decisão de
esconder-se com a família foi difícil para o repórter que nunca quis
virar notícia – e que sempre evitou ser fotografado. Enquanto era alvo
único das ameaças de morte, Caramante manteve uma rotina normal. O
jornalista só aceitou se mudar para um destino secreto quando sua
família passou a ser ameaçada. Mesmo assim, para ele é ponto de honra
seguir com seu trabalho de reportagem. Pela internet, envia informações
ao jornal com frequência. E segue assinando matérias na área da
segurança pública.
Quando um repórter é obrigado a mudar de país e se esconder com a
família por fazer bem o seu trabalho e prestar um serviço à população,
ao fiscalizar os órgãos de segurança pública, este não é um problema só
dele – mas da imprensa, que tem o dever de informar, e da sociedade, que
tem o direito de ser informada. É disso que se trata.
Na entrevista a seguir, feita por email entre sexta-feira e domingo,
André Caramante, 34 anos, fala sobre a situação de exceção que ele e sua
família estão vivendo, mas principalmente sobre as complexas
relaçõesentre violência e poder que a tornaram possível. Em 14 de julho, você publicou na Folha de S.Paulo uma matéria
com o seguinte título: “Ex-chefe da Rota vira político e prega a
violência no Facebook”. Você se referia ao coronel reformado Paulo
Adriano Lopes Lucinda Telhada, que comandou a Rota, em São Paulo, até
novembro de 2011, e, nestas eleições, disputou uma vaga para vereador
pelo PSDB. O que aconteceu a partir desta matéria que o levou a, dois
meses depois, ter de esconder-se com a família?
André Caramante - Cubro segurança pública há 13 anos, então,
muito dessa situação não é exatamente novidade. Nestes 13 anos, sempre
mantive minha lupa sobre os abusos cometidos por policiais,
especialmente no que diz respeito à letalidade. Considero legítimo que a
sociedade possa fiscalizar o Estado, especialmente seu braço armado.
Não podemos considerar eficiente uma polícia que mata tanto quanto a do
estado de São Paulo. Entre 2006 e 2010, a Polícia Militar de São Paulo
matou nove vezes mais do que todas as polícias dos Estados Unidos
juntas. A cultura da nossa polícia militarizada permite que se mate sem
que se conheça sequer a identidade do "oponente". É tão normal e
aceitável quanto utilizar uma figura jurídica inexistente para preencher
o boletim de ocorrência – a "resistência (à prisão) seguida de morte". A
morte do empresário Ricardo de Aquino
por policiais militares no bairro Alto de Pinheiros (em São Paulo)
colocou a questão na agenda da mídia e das autoridades alguns meses
atrás. Como ele, vários outros foram vítimas dessa cultura e do mau
treinamento. É óbvio que alguns policiais agem na ilegalidade e a
maioria age dentro da lei. Também faço um trabalho consistente de
denúncia de grupos de extermínio formados por policiais militares e
civis e ex-policiais civis e militares, tendo revelado ao menos sete
deles. São grupos que, ao exemplo das milícias do Rio, tentam controlar
as atividades ilícitas na cidade – máquinas caça-níquel e tráfico de
drogas, às vezes cruzando o caminho do PCC – e geram mortes. Há grupos
bem estruturados e com braços de inteligência. Um deles, inclusive,
planejou a morte de um integrante do alto escalão do governo paulista,
sem que tenha conseguido levar a cabo a ação.Meu trabalho de denúncia
também abrange a corrupção na Polícia Civil. Hoje, as coisas se dividem
mais ou menos assim no Estado de São Paulo: alguns integrantes da PM
cometem violência e alguns da Civil escorregam na corrupção. São
questões totalmente relacionadas a poder e dinheiro. Em dezembro do ano
passado, publicamos uma investigação da Polícia Federal que mostrava
policiais civis cobrando grandes valores para liberar da prisão
suspeitos de tráfico de drogas. Somadas, as propinas chegavam a R$ 3
milhões. É uma conduta isolada? Esquemas assim não surgem do nada. É da
cultura da instituição, e são as pessoas que constroem a cultura
organizacional. Mudar não é uma questão de ser fácil ou difícil, mas de
não ser interessante para as pessoas que estão lá. Você vem denunciando essa situação há bastante tempo, mas só
agora teve de esconder-secom sua família por causa de ameaças de morte. O
que aconteceu?
Caramante – O que houve foi não digo o surgimento, mas a
publicidade e o crescimento exponencial de um clima favorável à
intimidação, no qual pessoas sentiram-se à vontade, ou mesmo incitadas, a
disseminar "avisos". A partir da matéria sobre o que estava acontecendo
no Facebook houve um acirramento dos ânimos de quem antes já me via
como inimigo, além do crescimento quantitativo dos que mantêm os olhos
em mim e no meu trabalho de uma forma negativa.Houve uma onda de
comentários no Facebook, no Twitter, em blogs e no site da Folha que
foram desde "péssimo repórter" até "bala nele". Era só "ativismo de
sofá", de gente que só despeja frases no teclado do computador?
Provavelmente.Depois, alertas de caráter dúbio – "Quando acontecer algo
com alguém da sua família...", "Quando você for sequestrado..." –
surgiam nos espaços de comentários do site da Folha em qualquer
reportagem que eu escrevesse e até naquelas em que não tive
participação, mas que traziam denúncias contra membros das polícias.
Também orquestraram o envio de diversas cartas contra mim, enquanto
profissional, para a Folha.Após pouco mais de um mês de bombardeio
digital, as ameaças tornaram-se mais concretas, com fatos atualmente sob
investigação das autoridades competentes. Que fatos são estes?
Caramante – Não falo de um fato, mas de uma série, que se
iniciou dias após aquela onda nas redes sociais. Foram ligações,
comprovações por fontes altamente confiáveis,de que estavam levantando
informações de familiares, motos em trajetos curiosamente iguais aos
meus. Não acho possível dimensionar a gravidade do risco, e também
chegou-se a um ponto em que não valia mais a pena ficar avaliando.
Decidi ouvir gente mais experiente do que eu e, em conjunto com o
jornal, foi tomada uma decisão: trabalho à distância.
Não estou fisicamente na redação desde o início de setembro, sem que
tenha saído da ativa. Esta é uma situação em que o risco físico toma a
cena, mas certamente ele não é o único. Venham de onde vierem, a ameaça e
a intimidação têm o objetivo de desestabilizar, tirar de cena. Jogam
com o risco psicológico também, testam quão boa é a sua cabeça e quão
forte é a sua corrente. Qual é o papel do Coronel Telhada, ex-comandante da Rota, nesta série de ameaças?
Caramante – Em sua página, o coronel reformado começou a
divulgar relatos de confrontos entre PMs da Rota e civis – estes sempre
chamados de "vagabundos” –, além de divulgar fotos de pessoas que,
segundo ele, eram suspeitos de crimes. Fiz um texto objetivo,
relativamente curto, sobre isso. No dia da publicação no jornal, 14 de
julho, ele postou no Facebook uma mensagem na qual me acusava de
"defender abertamente o crime" e pedia uma mobilização contra mim. A
conduta desse senhor deflagrou uma onda de tentativas de intimidação, de
incitação à violência contra um jornalista – um profissional que apenas
retratou o que o próprio coronel reformado registrou publicamente na
rede social. Não estou dizendo que ele quis ou que ele não quis incitar
atos violentos. Estou dizendo que acabou incitando. Quem efetivamente está ameaçando você? E quais foram as ameaças?
Caramante – De onde vejo, apontar um ou outro possível autor
pode dar grande margem a erro. Tenho minhas suspeitas, mas não cometeria
o equívoco de acusar sem provas. Creio que haja dois tipos de ameaça. A
primeira se aproxima do "ativismo de sofá", de quem escreve no
computador algo que jamais cumprirá. Os autores deste tipo de ameaça não
são tão desconhecidos assim, e não é tão difícil encontrá-los nos
canais digitais. A segunda, esta sim grave, é a ameaça de quem considera
a possibilidade de agir. Aqui estão desde admiradores de policiais
alvos de reportagens, pessoas que pouco têm a perder e vivem com
parâmetros de raciocínio e moral diferentes dos nossos, até outros que
há tempos me têm como um inimigo e podem aproveitar justamente esta
visibilidade do caso do Facebook para tentar algo e "colocar na conta"
de outro. O caso do Facebook, além de ser apenas uma parte da história,
pode ser usado por outros para acobertar eventuais retaliações. Mas,
veja, isto é o que eu deduzo com base na minha experiência, não há
qualquer base de pesquisa ou de investigação científica. O que você está dizendo é que pessoas que se ressentem há muito
tempo com suas denúncias de abusos cometidos pela polícia estariam se
aproveitando do caso do Facebook para se vingar e desviar a
responsabilidade para o Coronel Telhada?
Caramante – Sim, é uma possibilidade. Quando as primeiras ameaças se tornaram públicas, você disse
que continuaria a fazer o seu trabalho. Imagino que deve ter sido
difícil tomar a decisão de se afastar da redação. Como esta decisão foi
tomada?
Caramante – É importante esclarecer que o termo "afastamento"
não é apropriado para o meu caso. Continuo exercendo minhas atividades
profissionais, onde quer que eu esteja. Não estar fisicamente na redação
me causa impedimentos que são irrisórios frente à necessidade atual de
garantia da integridade, minha e da minha família. Quando você deixou de trabalhar na redação?
Caramante – Desde o início de setembro. Os advogados do jornal
encaminharam às autoridades uma solicitação de investigação sobre as
ameaças. Alterei completamente minha rotina e minha localização. Foi difícil?
Caramante – Sou trabalhador desde os 11 anos e não tenho
dúvidas quanto à profissão que escolhi. A decisão de estar fisicamente
ausente da redação não foi nada fácil. Particularmente, via este passo
como um sinal de recuo, um erro do ponto de vista do meu ideal e mesmo
de estratégia em relação a quem tenta enfraquecer o trabalho da
imprensa. O que fizemos, então, foi arquitetar uma ausência que fosse
apenas física, com uma operação que permitisse que seguíssemos em
frente. Existem inúmeras maneiras de fazer reportagem. Qual foi a reação da sua família e como eles estão vivendo esse momento?
Caramante – Estão todos cientes e bastante atentos. Não é
fácil estar ausente, mas não creio que seria muito melhor estar presente
e vivendo com sombras. Meus filhos percebem a situação incomum que
vivem atualmente, mas ignoram essa história toda. Felizmente, eles
sentem-se seguros onde pai e mãe estão – não importa onde. Minha rede
familiar está permeada pelo estresse, mas ela é muito forte. Sempre foi,
desde muito antes de toda essa situação. Além disso, a corrente formada
por colegas de profissão e entidades daqui e de fora também deixou
claro que este não é um problema só meu. Entidades como Repórteres Sem
Fronteiras, Knight Center of Journalism (vinculado à Universidade do
Texas), Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, Instituto Sou
da Paz, coletivo Sindicato É Pra Lutar e movimento independente Mães de
Maio se manifestaram publicamente em apoio à minha atuação e ao direito
de informar. É isso que está em jogo, o direito de informar?
Caramante – É uma questão ligada ao direito de informar e de
ser informado, e meus companheiros de profissão sabem do que falo. Há,
atualmente, no estado de São Paulo, uma grande preocupação por parte de
autoridades da segurança pública de tentar evitar que muitos fatos sejam
tornados públicos pela imprensa. Por conta disso, funcionários públicos
que as autoridades acreditam manter contato com jornalistas passam a
ser alvo de perseguição nas instituições às quais pertencem. Muitas
vezes, essas perseguições são feitas com base apenas no "achismo". Que fatos são estes, que as autoridades da segurança pública não querem que se tornem públicos?
Caramante – Qualquer dado que não conste do relatório oficial
publicado mensalmente no site da secretaria. Não é exagero. Falo de
qualquer dado mesmo. Basta perguntar a quem cobre a área. Não é de hoje.
Sempre foi assim. No estado de São Paulo, jornalistas são impedidos de
consultar boletins de ocorrência, um documento público. Tudo –
absolutamente tudo – tem de passar pelas canetas das assessorias de
imprensa da Secretaria e da Polícia Militar. É uma operação extremamente
centralizada e que visa impedir o repórter de ir a uma delegacia e
obter informações sobre uma ocorrência. Por quê?
Caramante – Vejo como uma tentativa de construir uma realidade
que não existe aqui, como se vivêssemos na Suécia. A proibição do
acesso a boletins de ocorrência integra uma estratégia de forte controle
de informações. "Só sai o que eu quero." Não importa a relevância do
dado, esta é a diretriz. Delegados só dão entrevistas mediante
autorização de assessores de imprensa. É meio estranho que uma
autoridade seja submetida a esse tipo de imposição para tentar controlar
a informação. Esta foi a primeira vez que você foi ameaçado de morte?
Caramante – Não. Como vários outros colegas, já passei por
situações semelhantes. Ouvi pelo telefone frases como "Cuidado, muita
gente morre em assalto por aí", seguida por meu endereço completo.
Tempos atrás, policiais à paisana fotografaram minha família durante um
passeio. Você costuma denunciar os abusos cometidos pela polícia,
especialmente contra os moradores das periferias de São Paulo e da
Grande São Paulo. Você se considera, hoje, nesta situação, uma vítima da
polícia?
Caramante – Não me considero vítima de nada. Tenho plena
consciência de que não posso e não quero ser notícia. Sou contratado por
um jornal para contar as histórias das outras pessoas, para fiscalizar
um determinado segmento do poder público. E a minha preocupação é sempre
esta: contar a história do próximo, registrar os fatos, levar a notícia
para quem lê a Folha de S.Paulo. As páginas de um jornal
marcam a história de um país. Eu sou uma peça dessa engrenagem que
imprime a história no papel do jornal. A exposição desses últimos fatos
me trouxe tristeza porque não é o que busco como repórter. Aí vão
perguntar: “E por que você está dando entrevista?”. Estou dando
entrevista porque, do muito que foi dito sobre a minha pessoa, pouco foi
dito por mim. Porque quero esclarecer que não estou "afastado".
Afastamento dá a ideia de punição, de suspensão, e nunca houve nada
nesse sentido da parte do jornal. Pelo contrário: sanamos a demanda
urgente relativa à garantia da integridade e ao mesmo tempo planejamos a
continuidade do trabalho. E mais: não existe isso de perseguir a
Polícia Militar ou a Polícia Civil com meu trabalho. O que penso é que
ninguém quer ter nessas instituições pessoas que não façam jus à
condição de representantes do Estado. Já entrevistei muitas pessoas ameaçadas de morte, algumas delas
ameaçadas de morte por policiais, de diferentes estados. Minha
percepçãoé de que estas últimas sentem um nível de desamparo maior, na
medida em que, se aqueles que deveriam protegê-las, em vez disso ameaçam
a sua vida, para quem então pedem ajuda? Sem contar que membros da
polícia, por disporem do aparato do Estado, têm meios para comprometer a
credibilidade da vítima, “plantando” falsas provas. Como você percebe
isso?
Caramante – Quando você tem indicativos de que alguns dos
representantes armados do Estado querem te desestabilizar, com certeza, a
reflexão é sempre essa: para quem recorrer, como agir? Muitas vezes,
essas mesmas pessoas tentam desmoralizar seu trabalho e sua conduta fora
do campo profissional, mas tenho tentado me manter centrado. Converso
com repórteres amigos para dividir alguns pensamentos e pensar em
maneiras de me manter firme na caminhada. Por que o estão ameaçando? Que “ameaça” você representa para que ameacem a sua vida? E por que agora, neste momento?
Caramante – Como te falei, não é de agora. É uma coisa que
ficou mais acentuada. Pode ser que tenha alguma relação com o período
eleitoral ou com outros interesses que ainda não consigo afirmar quais
são. Um deles, por exemplo, pode ser a necessidade que muitos têm de
manter o poder ou de chegar até o poder. Quem? Pode explicar melhor?
Caramante – Não posso nomeá-los, pois aí já entraremos em
informações referentes aos bastidores das polícias, e esses meandros
estão muito ligados às minhas fontes e às minhas apurações. Hoje, em São
Paulo, a questão da polícia vai além dos muros dessas instituições. A
cidade nunca esteve, em período democrático, tão militarizada. Trinta
das 31 subprefeituras ganharam comando de PMs da reserva na gestão
Kassab. Com a criação da operação delegada, os policiais militares hoje
atuam oficialmente não apenas para a corporação, mas também para a
prefeitura – é o bico legalizado. Vemos então que as frentes de poder
estão crescendo, e há muita gente na disputa. Sem contar os cargos na
Câmara Municipal. Por que isso está acontecendo? Por que, por exemplo, 30 das 31
subprefeituras de São Paulo ganharam comando de PMs da reserva nesta
gestão?Como você caracterizaria esse projeto de poder?
Caramante – Esse processo ganhou corpo quando o coronel (agora
reformado) da PM Álvaro Batista Camilo, também candidato a vereador,
pelo PSD, se aproximou do prefeito Kassab, na época em que era
comandante-geral da PM. Como é sabido, Kassab vem marcando sua gestão
com uma postura de cerceamento. Já são notórias as tentativas de
proibição de sopões a moradores de rua, de saraus na periferia, da feira
da praça Roosevelt, no centro de São Paulo, e outras mais. O que o fato de um repórter de um dos maiores jornais do país
ser ameaçado de morte revela sobre a violência no estado de São Paulo?
Caramante – É uma questão que não diz respeito somente à
violência. Esta é a parte tangível de todo o contexto que citei
anteriormente. A relação polícia X poder é atualmente um ponto muito
importante. Desde a abertura política, talvez seja este o momento em que
São Paulo mais tenha a influência de policiais militares. Com poder em
jogo, os ânimos se acirram, em qualquer área.
Por que agora? E o que está em jogo?
Caramante – Estamos em um momento propício por conta da já
citada aproximação sem precedentes (da polícia) com outras esferas do
poder público. Muitos oficiais da PM notaram, e agora tentam dar vazão a
isso, que há outras e importantes áreas para onde estender seu campo de
atuação – e de poder. Você cobre a área policial há 13 anos. Documentou, como
repórter, a ascensão do PCC. Você costuma dizer que vivemos numa guerra.
Por quê? Como é essa guerra e em que momento dessa guerra estamos hoje?
Caramante – É uma guerra entre o grupo criminoso PCC e as
forças de segurança do Estado. O PCC é forte porque controla o tráfico
de drogas no estado de São Paulo. É inegável o fato de o estado de São
Paulo, desde 1999, ter conseguido baixar suas taxas de homicídios
dolosos (intencionais). Essa queda, porém, é fruto de controle duplo: se
deve tanto a progressos na Segurança Pública quanto ao comando do PCC.
Em muitas situações, é o PCC quem decide quem morre em São Paulo, nos
chamados tribunais do crime. Hoje, outubro de 2012, a guerra está mais
acirrada entre o PCC e os policiais militares da Rota, considerada uma
tropa de elite da PM paulista e que conta com 820 integrantes.
Investigações contra o PCC antes feitas pela Polícia Civil, que tem essa
atribuição pela lei, foram remetidas à Rota, que tem função de
policiamento preventivo, ou seja, trabalhar para evitar que o crime
ocorra.Estou dizendo isso porque defendo criminosos e quero dar uma
chance a eles? Não. Falo porque é ilegal. Quem investiga é a Polícia
Civil. Há aí uma nítida tentativa de empoderar ainda mais os integrantes
da Rota. É o Estado agindo ilegalmente. Por quê?
Caramante – Isso é um reflexo da atual cúpula da Secretaria da
Segurança Pública, que tem um histórico de relacionamento intrínseco
com a Rota. Nos primeiros escalões da segurança pública paulista,
também, impera uma certa desconfiança quanto à atuação de parte da
Polícia Civil nas investigações sobre o PCC. Fala-se em corrupção. Na semana passada, a Folha publicou que arquivos da
facção PCC revelam atuação em 123 cidades de São Paulo, com 1.343 homens
em todas as regiões do estado. O governo de São Paulo tentou minimizaro
impacto das informações e o poder do PCC. O governador, Geraldo
Alckmin, afirmou que “há muita lenda” sobre facções criminosas no estado
de São Paulo. O secretário da Segurança Pública, Antonio Ferreira
Pinto, declarou: “A facção é bem menor do que dizem. Não chega a 30 ou
40 indivíduos que estão presos há muito tempo e se dedicam ao tráfico.
Nós temos asfixiado esse tráfico com grandes prisões”. O coronel da
Polícia Militar Marcos Roberto Chaves da Silva, comandante do
policiamento da capital, disse que existe “folclore” nas informações
sobre o PCC. Qual é a verdade?
Caramante – Curioso como esse folclore é alinhado à realidade.
No mês passado, por exemplo, a Rota matou nove pessoas envolvidas em um
“tribunal do crime”, um julgamento no qual um homem suspeito de
estuprar uma menina teria sua vida decidida pelos criminosos do PCC. Um
dos nove mortos pela Rota era o “réu” do partido do crime, como os
policiais chamam o PCC. Para justificar a ação, o governo disse que
todos eram muito perigosos, que integravam o PCC. Passado o calor do
acontecimento, o governo voltou à postura habitual de minimizar a
importância, o tamanho e o poder do grupo. Se são apenas 30 ou 40
indivíduos, as oito mortes no mês passado reduziram significativamente o
PCC. É isso o que vemos quando policiais militares são mortos quando
estão de folga, como tem ocorrido constantemente em São Paulo? Será que o
PCC deixou de decidir quem vive ou quem morre durante um “tribunal do
crime”, quase sempre via telefones celulares usados por criminosos que
estão presos e, na teoria, deveriam estar sem comunicação com as ruas?
Quem vive na periferia de São Paulo sabe bem como as coisas são. E como as coisas são? Como é o cotidiano de quem vive na periferia com relação ao PCC e à Rota?
Caramante – O PCC domina os pontos de tráfico de drogas em São
Paulo. Para evitar a presença das polícias, tenta corromper alguns de
seus integrantes e também busca evitar crimes nas redondezas dos pontos
de tráfico, principalmente homicídios. No meio disso, quem não é nem do
PCC, nem da polícia, assiste a tudo em silêncio, esperando que não
"sobre" para si. O governador Geraldo Alckmin trocou o comando da Rota, no final
de setembro. Entre as razões, estaria a divulgação de que o número de
pessoas assassinadas pela tropa aumentou 45% nos primeiros cinco meses
deste ano, comparado ao mesmo período do ano passado. Qual é a sua
opinião sobre a Rota? Ela deveria acabar?
Caramante – Não só a Rota, mas toda a Polícia Militar. A PM
tem uma estrutura que desconhece meritocracia e privilegia uma variação
do nepotismo. Policiais dos escalões mais baixos são usados como degrau
para filhos de oficiais que estão no topo da pirâmide. É como se o filho
do coronel fosse, desde sempre, o coronel de amanhã, e o filho do praça
já nascesse sabendo que jamais será oficial. Há exceções que o governo
pode vir a bradar, claro, mas a regra é mais ou menos essa.Quantos
oficiais foram mortos pelo PCC?Nenhum. É óbvio que não tem de morrer nem
o official, nem o praça. Mas, hoje, só morre aquele trabalhador que
está na linha de frente e também vive na periferia de São Paulo.Quem
cobre segurança pública em São Paulo também sabe que os policiais da
Rota saem às ruas com um ímpeto diferenciado e, às vezes, alguns deles
cometem excessos. É o caso da morte do representante comercial Paulo
Alberto Santana Oliveira de Jesus em Osasco, na Grande São Paulo, em
setembro de 2011. Ele foi morto em casa, desarmado e com as mãos para
trás. Em maio deste ano, das mortes de seis suspeitos de integrar o PCC
na zona leste de São Paulo, um deles foi levado a uma rodovia e
executado. Em ambas as situações, foi forjado um confronto armado,
segundo dados apresentados por promotores. As seis mortes na zona leste
são tidas como estopim para o atual acirramento da violência entre PCC e
Rota. Me parece curioso, para dizer o mínimo, que um repórter tenha
de se esconder para proteger sua vida após ter denunciado que um
candidato a vereador pelo PSDB e ex-comandante da Rota disseminava a
violência no Facebook e ninguém, de nenhum partido, tenha falado disso
durantea campanha. Você tem alguma hipótese para esse silêncio?
Caramante – No fim de setembro, um candidato a vereador em São
Paulo, assim como esse ex-chefe da Rota, pediu a impugnação da
candidatura dele e alegou que esse senhor aparecia em sua propaganda
política fardado, o que não é permitido pela lei eleitoral. Esse mesmo
candidato também foi alvo da ira dos simpatizantes do ex-chefe da Rota e
recebeu ameaças. A promotoria eleitoral também pediu, na semana
passada, a impugnação da candidatura desse PM reformado e alegou que ele
utilizou sua página no Facebook para incitar a violência. Por que você se tornou repórter de polícia?
Caramante – Porque quem tem a obrigação de nos defender não
pode, sob hipótese alguma, atentar contra nós. Também queria que meu pai
tivesse o orgulho de ver seu sobrenome no jornal por uma causa
justa.Sempre admirei o trabalho de repórteres como ( Caco) Barcellos. Há
histórias e situações que precisam ser contadas. Admiro muito, também,
José Hamilton Ribeiro, mestre na arte de contar histórias. Ouvi palavras
de apoio dos dois recentemente. As de Barcellos recebi com reverência. O
tenho como meu maior exemplo. As de seu Zé Hamilton, com emoção. Me
pegou desprevenido. Me marcou.Quero agradecer cada mão estendida e cada
palavra de apoio que foi dita em nome da garantia do direito de informar
e ser informado. “Repórter de polícia” ainda é uma boa definição para jornalistas como você?
Caramante – Acredito que o termo “repórter de polícia” deixou
de existir. Hoje, cobrimos segurança pública e, por conta de uma
evolução da cobertura nessa área, que deixou de ser tão vinculada às
autoridades, como era no passado, somos repórteres de segurança pública.
E qual é a importância de se cobrir a área de segurança pública num país como o Brasil?
Caramante – É um tema intimamente ligado ao cotidiano das
pessoas, e ainda temos muito a evoluir tanto no combate à criminalidade
comum quanto à de parte das forças de segurança. Você monitora o número de pessoas mortas pela polícia. Quantos foram mortos até hoje no estado de São Paulo?
Caramante – Sim, monitoro porque o jornal para o qual trabalho
dá atenção especial para a questão da letalidade policial. Tenho meu
próprio sistema de dados, no qual registro todas as mortes cometidas por
policiais militares. Estes números não batem com os oficiais. A
Secretaria da Segurança Pública de São Paulo divulga em sua página na
internet apenas as chamadas "resistências seguidas de morte", mas há
outros casos que entram na vala comum dos homicídios dolosos cometidos
por qualquer cidadão. Minha contabilidade mostra que, entre 2005 e
agosto deste ano, policiais militares mataram 4.358 pessoas no estado.
Destas, 3.401 foram em “resistência(à prisão) seguida de morte” – figura
jurídica inexistente, repito – e 957 em homicídios dolosos, que vão
desde brigas em bar, no trânsito, casos conjugais, até mortes como a do
empresário Ricardo de Aquino. São 47,3 mortos por PMs a cada mês. Ou
seja: 1,5 a cada dia. Este é o retrato de uma Polícia Militar
extremamente letal e que precisa passar por reformas o quanto antes. Em que medida as relações entre o aparato de repressão do
Estado e a população explicitam a desigualdade e as fissuras da
sociedade brasileira num estado como São Paulo?
Caramante – A Polícia Militar que atua dentro do perímetro do
rodízio de veículos (de São Paulo), o chamado centro expandido, não é a
mesma que atua na periferia. Temos duas polícias militares para cuidar
da mesma cidade, e cada uma delas trata os cidadãos de maneira
diferenciada, isso de acordo com o CEP da pessoa. Muitas vezes,
policiais são mandados à periferia como forma de punição dentro do jogo
de poder que não está nos manuais da corporação. Então, já vai para lá
com um sentimento diferenciado. Recentemente, pesquisadores mostraram,
com base em dados da Secretaria Municipal da Saúde, que 93% dos mortos
pela Polícia Militar moravam na periferia de São Paulo. O estudo teve
como base os anos entre 2001 e 2010. No período, dos mortos por PMs, 54%
eram pardos ou negros. Hoje há programas de TV que cobrem a área policial, nos quais
suspeitos são tratados por jornalistas como condenados – e condenados
sem direito algum –, marcas de tortura em detidos e presos são ignoradas
e apresentadores incitam a violência da sociedade contra “vagabundos”.
Você acha que esse tipo de imprensa colabora para que jornalistas como
você, que trabalham com seriedade e denunciam também os abusos cometidos
pela polícia, sofram ameaças?
Caramante – São profissionais da imprensa que recebem altos
salários para fazer o que fazem. Eles são experientes e, creio, no fundo
sabem que somente a Justiça pode condenar ou inocentar algum suspeito
de determinado crime. Estão ali por cifras altas. É a mesma situação de
um profissional de jornalismo que abandona a carreira numa redação para
ser assessor e ganhar R$ 1 milhão por seis meses de trabalho numa
campanha política. São opções e temos de respeitar quem as toma. Mas
essas pessoas também têm de respeitar quem não pensa como elas. Como é estar no lugar de vítima para você, que tanto denunciou a violação de direitos humanos dos mais pobres e indefesos?
Caramante – Vítima é a dona Maria da Conceição, mãe do Antonio Carlos da Silva, o Carlinhos, portador de deficiência mental que foi morto por policiais militares que integram o grupo de extermínio “Highlanders”,
segundo a Polícia Civil e a Promotoria. Ele teve a cabeça e as mãos
arrancadas após ter sido morto porque andava na rua e tinha dificuldades
de comunicação. Você pode contar melhor esta história?
Caramante – Carlinhos foi morto em outubro de 2008, na
periferia da zona sul de São Paulo. Estava perto de casa quando foi
obrigado a entrar em uma viatura da Polícia Militar que fazia ronda no
local. Vizinhos assistiram à cena e relataram à família. Imediatamente, a
mãe, dona Maria da Conceição dos Santos, a irmã, Vânia Lúcia, e o pai
começaram a procurá-lo. Poucas horas depois foram até o 37º Batalhão,
onde ouviram da boca dos PMs – que, segundo a Polícia Civil e a
Promotoria, mataram seu filho – que não o tinham visto. Encontraram o
corpo de Carlinhos, decapitado e com as mãos arrancadas, em uma cidade
vizinha. Ele, que era portador de necessidades especiais, tinha
dificuldades para se comunicar. Uma das maiores dificuldades da situação que você está vivendo parece ser o fato de ter virado notícia. Por quê?
Caramante – Para começar, nunca me vi numa situação assim. Não
é para isso que decidi ser repórter. A questão da exposição parece
parte de uma realidade paralela, não se encaixa na minha trajetória.
Optei por sempre passar despercebido.Quero poder continuar sentando numa
delegacia sem que ninguém saiba quem eu sou. Imagino que você tenha medo em alguns momentos ou o tempo todo. Como lida com isso?
Caramante – O medo pode ser uma ótima ferramenta para aguçar
os instintos. Sim, pode ser devastador também. Tento utilizá-lo como um
agente minimizador de riscos. Nos momentos mais difíceis de
administrá-lo, busco lembrar por que estou nesta caminhada. Me vêm à
mente pessoas das quais contei histórias. O foco são elas, não eu. Há perspectiva de sair dessa situação em breve?
Caramante – Minha situação atual passa por constante avaliação da direção do jornal. Por enquanto, manteremos como está. Como essa experiência está transformando você? Já é possível perceber alguns impactos e mudanças?
Caramante – Situações dessa intensidade são oportunidades para
reafirmar algumas ideias e descartar outras. Houve impacto, e mudanças
certamente virão. Mas estão em curso, e por isso prefiro guardá-las aqui
comigo. Que ideias você reafirmou e quais descartou?
Caramante – Reafirmei, por exemplo, a ideia de que tenho de
permanecer alguém que conta as histórias dos outros, e também meu
intuito de contribuir, minimamente que seja, para a melhoria dos setores
que cubro. Deixei de lado a ideia de que riscos podem ser mensurados
com algum grau de exatidão. Ninguém faz nada, até que alguém faça. Como tem sido seu cotidiano nessa situação de ameaçado de morte?
Caramante – Realmente acho difícil falar sobre isso. Há
preocupação referente não apenas à situação atual, mas a como será no
futuro. Esta não é uma situação que tenha prazo de validade.Agora à
noite, um dos meus filhos disse que preferia estar na nossa casa de
verdade. Perguntei o motivo. "Lá é mais colorido." Eliane Brum escreve às segundas-feiras. FONTE: EPOCA
Intervencionista e corajoso, Lula mostra sua força
Em plena temporada do mensalão, ex-presidente
botou a cara em julgamento; destituiu candidatos, nomeou quem quis no PT
e foi o maquinista do trem eleitoral do partido; ida de Fernando Haddad
para o segundo turno em São Paulo, renovação apontada por Marcio
Pochman em Campinas e massacre patrocinado por Luiz Marinho em São
Bernardo mostram que ele só cresceu no maior Estado do País; derrotas em
Belo Horizonte e Recife têm contrapeso nos bons desempenhos de seus
candidatos em Curitiba e Manaus; PT tornou-se campeão nacional de votos,
com 17,25 milhões contra 16,65 milhões do PMDB; Lula é ferro!
8 de Outubro de 2012 às 12:27
247 – Os comentaristas conservadores podem torcer o nariz. Mais
uma vez. Porém, com seu estilo intervencionista, atropelador e,
sobretudo, corajoso, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostrou
de novo a força de sua popularidade. Registre-se, de saída, que ele
sofreu derrotas pessoais em Recife, onde impôs Humberto Costa no lugar
do prefeito que tinha chances de vitória João da Costa, e também em Belo
Horizonte, capital mineira em que seu escolhido Patrus Ananias ciscou
chegar, mas ficou na poeira da vitória em primeiro turno de Marcio
Lacerda. Nos dois casos, Lula bateu de frente com dois dos mais fortes
caciques regionais do País, o governador Eduardo Campos, em Pernambuco, e
o senador Aécio Neves, em Minas. Deu torcida sobre o primeiro, mas
passou longe de ameaçar o segundo. Mas alguém ousaria, ao menos, tentar?
Porém, o que dizer da alavancagem que Lula proporcionou ao
ex-ministro Fernando Haddad, em São Paulo, outra de suas criticadas
escolhas? Com praticamente zero por cento em dezembro, cravou 29% dos
votos no domingo 7, ficando a um ponto do bicho-papão José Serra e
olhando pelo retrivisor o azarão Celso Russomano. Carregado pela mão por
Lula, Haddad, se caísse, arrastaria Lula para um bueiro de críticas. Ao
passar para o segundo turno em condição de favoritismo, com 45% das
intenções segundo o Instituto Datafolha, contra 39% de Serra, Haddad só
não puxa o prestígio de Lula ainda mais para cima nas páginas da mídia
tradicional. Na realidade, o ex-presidente consumou um prodígio de
transferência de votos na maior e mais complexa cidade do País. Haddad é
sua maior vitória, acima de todas as outras.
Em Campinas, com o ex-presidente do Ipea Márcio Pochmann, que as
pesquisas davam por derrotado, Lula prosseguiu positivamente, agora na
segundo maior cidade do Estado de São Paulo, em seu movimento de
renovação do PT, carregando-o para talvez o mais improvável dos segundos
turnos. Seu amigo pessoal Luiz Marinho, por outro lado, ganhou
estourando em seu berço político, São Bernardo do Campo. Na vizinha
Santo André, por pouco a fatura não foi liquidada logo na primeira
volta, com Carlos Grana, do PT lulista, fechando com 42% dos votos.
De volta ao Nordeste, ACM Neto, do DEM, tinha tudo para ganhar em
primeiro turno, mas ficou apenas um ponto a frente de Nelson Pelegrino,
do PT, outro embarcado no trem eleitoral pilotado pelo maquinista Lula.
Isso não conta? Em Manaus, noutra capital em que jogou seu prestígio, o
ex-presidente igualmente provocou o segundo turno contra o arquirival
petista Artur Virgílio, guiando a senadora Vanessa Graziotin, do PCdoB,
para as águas de um novo escrutínio.
É preciso refrescar a memória com outra informação que aponta para
Lula como, inconteste, a maior liderança política do País. Quando ele
chegou à Presidência da República, em 2002, seu partido tinha cerca de
uma centena de prefeituras. Agora, essa base está multiplicada por seis,
chegando a perto de 650 cidades administradas pelo partido. O índice
pessoal de popularidade do presidente é maior até mesmo que o da
presidente Dilma Roussef, uma recordista de aprovações. Com Lula, agora,
o PT tornou-se o campeão nacional de votos, com 17,25 milhões, a frente
do PMDB que atingiu 16,65 milhões.
Na véspera das eleições de domingo, Lula foi direto ao ponto teclado
com insistência por seus críticos, em cima do palanque de Marinho em São
Bernardo. "Tem muita gente que a vida inteira torce para o fim do PT e o
que vai acontecer é que o PT vai sair mais forte dessas eleições do que
entrou, em todas as regiões", disse. "Mas o PT sairá fortalecido aqui
no ABC e no Brasil", acrescentou Lula. "Tenho certeza de que será a
legenda mais votada no Brasil inteiro, porque é muito boa". Sempre fiel a
seu jeitão, ele previu a superação, por Haddad, de sua primeira prova
de fogo. "Se tem um candidato que vai para o segundo turno é o Haddad,
agora, quem vai com ele eu não sei", afirmou. Errou? Não. Erraram os que
duvidaram, com desdém, do grande vitorioso das eleições municipais de
2012: Lula.
Para um desconhecido o candidato do partido verde foi muito bem, mas será que o candidato Guimarães era bom mesmo? ou o boneco, ops! o candidato do Cid que era ruim? Porque 13, 13..13 o Cid grita aqui, mas em Fortaleza jamais! O 13 de Fortaleza não é brinquedo não...agora é esperar o Veveu cumprir ao menos 50% do que foi dito...e coitado dos garis das cooperativas de fachadas...